Cidades | INSEGURANÇA

“Cracolândia” do Mercado Central gera insegurança

Situação é recorrente, principalmente na Rua do Mercado, onde dezenas de dependentes químicos se aglomeram, vivendo na própria via; conflitos e furtos são presenciados constantemente na área e trabalhadores temem o pior
MONALISA BENAVENUTO / O ESTADO07/01/2019
“Cracolândia” do Mercado Central gera insegurança Mercado Central está sendo ocupado por usuários de entorpecentes (Paulo Soares / O Estado)

Em uma área de aproximadamente 40 metros, na Rua do Mercado, na área do Mercado Central de São Luís, dezenas de usuários de drogas se aglomeram, formando uma espécie de “cracolândia”. A presença dos dependentes químicos tem gerado insegurança a frequentadores do local que, diariamente, presenciam conflitos e delitos cometidos pelos dependentes. De acordo com comerciantes da área, operações da polícia são frequentes, mas insuficientes.

Em situação de rua, os dependentes químicos se alimentam, dormem e consomem drogas nas calçadas da Rua do Mercado. A situação é recorrente há anos, como contou Suzana Alves, gerente de uma loja situada na região. “Isso é muito antigo e afeta muito o comércio local. A gente perde muitos clientes, porque eles ficam com medo de estacionar os carros e se aproximar, mas nós mesmo já estamos acostumados”, contou. Segundo Alves, o registro de furtos cometidos pelos dependentes químicos é constante. “Frequentemente eles roubam produtos aqui na loja e em outros comércios. Quando os lojistas percebem, se juntam e colocam eles para correr”, ressaltou.

Assim como a gerente, o vigilante Alberto de Jesus, que semanalmente frequenta a via, destacou que, apesar do medo, a situação não gera mais surpresa. “Inseguro a gente sempre se sente, mas já é normal. Eles pedem comida, a gente até compra farinha e dá, aí eles não mexem. Entre eles tem muita briga, eles se furam, puxam faca um para o outro”, relatou.

Ainda de acordo com os frequentadores do Mercado Central, ações policiais são realizadas no local, mas não surtem efeitos efetivos. “A polícia vem, expulsa eles daqui, mas é só a viatura dobrar a esquina, que eles retornam”, afirmou a aposentada Regina Castro, que costuma pegar ônibus na Rua do Mercado. “Nem o presidente resolve isso aqui. Infelizmente, parece não ter jeito”, lamentou.

São mulheres e homens, adultos e até mesmo crianças em situação de vulnerabilidade social. Para sustentar a dependência, os usuários de drogas se aglomeram na área devido à possibilidade de realizarem pequenos serviços braçais em troca de moedas que acabam sendo utilizadas para a compra de substâncias como álcool e drogas, como explicou o coordenador estadual do Centro de Atendimento Psicossocial – Álcool e Drogas (Caps AD), Marcelo Costa.

“Nessa região do Mercado Central, nós realmente temos observando, há cerca de um ano e meio uma concentração de pessoas em situação de rua e dependentes de drogas. O problema é que ali é uma região muito endêmica. São pessoas que ficam trabalhando no mercado e fazendo uso principalmente de álcool e crack. Durante o dia eles realizam trabalhos braçais e no período noturno costumam fazer uso de drogas.

Ações
Segundo ele, foram realizadas seis ações de saúde e resgate de dependentes químicos no local, onde mais de 40 pessoas foram encaminhadas para tratamento. “Desde a identificação desta área, temos realizado ações frequentes envolvendo promoção de saúde e a parte social, com o apoio da Semcas [Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social], além da Delegacia Civil, com a parceria do delegado Joviano Furtado. No ano passado, realizamos seis ações muito importantes porque conseguimos revitalizar a região da Fonte das Pedras, encaminhando cerca de 45 usuários para tratamentos tanto na Fazenda Esperança, em Coroatá, quanto em nossa unidade de acolhimento, para posterior reinserção social”, destacou.

Ainda de acordo com o coordenador da Caps AD no Maranhão, durante os próximos dias uma nova estratégia de atuação será discutida entre os órgãos competentes, visto que a população que se encontra alojada na Rua do Mercado não possui interesse em iniciar tratamento, portando problemas clínicos, mentais e sociais, além de oferecerem riscos àqueles que frequentam a região.

O Estado manteve contato, também, com o Governo do Maranhão, para questionar as medidas de segurança que vêm sendo promovidas no Mercado Central, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno.

SAIBA MAIS

Dependência química
Considerado um transtorno mental, além de um problema social pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a dependência química é tida como doença crônica, que comumente atinge indivíduos que fazem o uso constante de determinadas drogas. O portador desse tipo de distúrbio acaba por não conseguir conter o vício, afetando sua vida psíquica, emocional, física e a vida social.
As substâncias que atuam no sistema nervoso central, alterando a forma de o indivíduo pensar, agir ou sentir são denominadas drogas psicoativas. Sendo conhecida e usada desde o início das civilizações, em rituais religiosos ou como fonte de prazer, substâncias como a maconha, cocaína e o álcool ainda são comuns nos dias atuais. Tendem a causar um desequilíbrio no metabolismo químico do organismo, levando a dependência química da droga.
A motivação pelo uso engloba diversos fatores – de simples curiosidade a uma busca imediata de prazer ou alívio de sintomas, contudo, a maioria desconhece ou desacredita no potencial dessas drogas em causar a dependência.

CAPS AD
São pontos de atenção estratégicos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Unidades que prestam serviços de saúde de caráter aberto e comunitário, constituído por equipe multiprofissional que atua sobre a ótica interdisciplinar e realiza atendimento às pessoas com sofrimento ou transtorno mental, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de álcool e outras drogas, seja em situações de crise ou nos processos de reabilitação. São substitutivos ao modelo asilar, ou seja, aqueles em que os pacientes deveriam morar (manicômios).

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