O Mundo | Declínio demográfico

População chinesa cai em 2018 pela primeira vez em 70 anos

Dados oficiais ainda serão divulgados, mas estimativa é de que população tem agora 1,27 milhão a menos de pessoas. Número de nascimentos caiu em 2,5 milhões no ano passado, enquanto as autoridades chinesas esperavam um aumento de 790 mil
06/01/2019 às 07h00
População chinesa cai em 2018  pela primeira vez em 70 anos Para muitos jovens chineses, ter filhos não é uma prioridade (AFP)

PEQUIM - A China, o país mais populoso do mundo, sofreu em 2018 o primeiro declínio demográfico em pelo menos 70 anos, apesar do abandono da política do filho único, segundo especialistas.

Os dados oficiais serão divulgados neste mês mas, sem esperá-los, o especialista Yi Fuxian, um pesquisador estabelecido nos Estados Unidos na Universidade de Wisconsin-Madison, estima que a população da China diminuiu no ano passado em 1,27 milhão de pessoas.

Uma quantidade pequena se comparada com seus 1,39 bilhão de habitantes, mais de 6,5 vezes a população do Brasil, mas algo inédito na história da República Popular da China, fundada em 1949.

Depois de que o fundador do regime comunista, Mao Zedong, fomentou a natalidade, a China instaurou em 1979 a política do filho único, com frequência criticada por sua brutalidade.

Mas diante do envelhecimento da população, o governo passou a autorizar, em 2016, todas as famílias a terem dois filhos. O problema: devido ao alto custo da educação, saúde e moradia, muitos casais preferem ficar com apenas um ou inclusive nenhum filho.

'Mudança histórica'

Consequentemente, o número de nascimentos caiu em 2,5 milhões no ano passado, calcula Yi Fuxian, enquanto as autoridades chinesas esperavam um aumento de 790 mil. O total de nascimentos, segundo ele, deveria ser de 10,31 milhões em 2018.

Paralelamente, o número de falecimentos aumentou para 11,58 milhões, calcula o pesquisador, que baseia seus dados em estatísticas locais.

O ano passado representa "uma mudança histórica para a população chinesa", explicou Yi Fuxian à AFP, considerando que a tendência pode ser inclusive "irreversível", dada a diminuição do número de mulheres em idade fértil.

"A população chinesa começou a cair pela primeira vez desde 1949, o problema do envelhecimento acelerou e o dinamismo da economia perdeu força", apontou.

As pesquisas de Yi serão publicadas em um estudo realizado com o economista Su Jian, da Universidade de Pequim, com base em cifras da Comissão Nacional da Saúde.

'Crise demográfica'

A China entra em "uma crise demográfica", alarmou-se o economista Ren Zeping, do grupo imobiliário Evergrande.

Espera-se que a Índia supere nos próximos anos a China como país mais populoso do planeta.

A população chinesa em idade ativa (de 16 a 59 anos) reduziu em quase 5,5 milhões em 2017, sexto ano consecutivo de declínio, estabelecendo-se em 902 milhões de pessoas (65% da população total).

Segundo projeções do governo, o número de pessoas de 60 anos ou mais deveria chegar a 487 milhões em 2050, ou seja, 35% da população, contra 241 milhões (17,3%) no fim de 2017.

A cifra de mulheres em idade fértil retrocederia mais de 39% durante os 10 próximos anos, segundo He Yafu, um demógrafo independente que considera verossímeis as projeções do professor Yi.

Este último, que criticou durante muito tempo a política do filho único, insta agora o governo chinês a abolir o limite de dois filhos por família e a fomentar a natalidade com a ajuda de generosas licenças-paternidade e incentivos fiscais.

Se o regime comunista não intervir imediatamente, alertou, "a crise do envelhecimento será mais grave do que no Japão, e as perspectivas econômicas, ainda mais sombrias".

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