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Suspense recria história de resistência à ditadura nazista

Livro é um clássico de Hans Fallada um dos mais populares autores alemães do século XX; redescoberto em 2009, "Morrer sozinho em Berlim" se tornou fenômeno nos EUA e Europa
21/10/2018 às 07h00

SÃO PAULO - Publicado originalmente em 1947, "Morrer sozinho em Berlim" foi uma obra pioneira a tratar da resistência ao nazismo na Alemanha. Em 1945, após a queda do Terceiro Reich, uma pilha de documentos oficiais da Gestapo foi entregue na sede da Associação Cultural para a Renovação Democrática da Alemanha. Os arquivos, que continham processos de cidadãos condenados pelo regime nazista, deveriam inspirar e estimular uma nova produção artística na República Democrática Alemã.

Hans Fallada, desde os anos 1930 um dos mais populares escritores do país, recebeu os documentos relativos ao processo do casal berlinense Otto e Elise Hampel. Os dois operários de meia-idade haviam empreendido uma campanha de propaganda antinazista, incitando seus compatriotas à insurgência e à sabotagem. Decidido a recontar o caso, Fallada abraçou de corpo e alma o projeto e o resultado são as mais de seiscentas páginas desta edição apresenta Otto e Anna Quangel. Inconformados após a morte do filho na Segunda Guerra, os Quangels decidem realizar uma guerrilha de pequenos atos. A iniciativa, aparentemente inofensiva diante da máquina de guerra e do aparelho repressor do Führer, não demora para chamar a atenção do alto escalão do Terceiro Reich e dar início a um frenético jogo de gato e rato. A reputação e a vida do delegado Escherich, homem-forte da Gestapo, dependem de ele encontrar o traidor por trás do ultrajante desafio ao poder vigente.

Hans Fallada valeu-se das linhas gerais do episódio real para contar uma história de pessoas comuns em uma situação extrema, criando um romance que é tanto um relato objetivo da vida sob a ditadura nazista quanto um suspense policial denunciando os horrores da época. Entre trabalhadores, marginais, pequenos tiranos, acusados e acusadores, o livro retrata os tipos de uma Berlim sitiada, sufocada pelo vício e pelo medo, mas também marcada pela esperança.

"Morrer sozinho em Berlim" se tornou um sucesso imediato, mas, tanto a obra quanto seu autor, identificados com a Alemanha Oriental, acabaram eclipsados nas décadas seguintes. Após uma redescoberta na esteira da reunificação alemã e, principalmente, após a primeira tradução para o inglês em 2009, o livro se tornou um best-seller internacional e Fallada foi restabelecido como um dos grandes autores alemães do século XX.

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Capa do livro "Morrer sozinho em Berlim", de Hans Fallada

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Sobre o autor

Archiv Rudolf Ditzen nasceu em Greifswald, no nordeste da Alemanha, em 1893. Teve uma infância e juventude difíceis, talvez sequela de conflitos na relação com o pai, juiz num tribunal supremo em Leipzig. Aos 18 anos, se feriu gravemente e matou um colega em uma tentativa de duplo suicídio falseada como duelo, incidente que causou sua primeira internação psiquiátrica. Em 1920, assumiu o pseudônimo Hans Fallada, em referência a contos dos irmãos Grimm.

Trabalhou com jornalismo e publicidade até despontar no mundo literário com a novela "Bauern, Bonzen und Bomben" [Lavradores, caciques e bombas], no início da década de 1930. "E agora, seu moço?", de 1932, narrando a condição miserável da Alemanha antes da ascensão de Hitler, teve rápido sucesso mundial (incluindo adaptação hollywoodiana e edição brasileira em 1934 pela editora Livraria do Globo) e tornou-o um dos mais populares escritores de seu tempo. O estilo de Fallada é identificado com a Neue Sachlichkeit (nova objetividade, ou realismo social).

Sua vida foi marcada pelo vício em álcool e morfina, internações constantes e uma relação complicada com a ditadura vigente. Preso em um manicômio nazista e listado como indesejável pelo regime, Fallada aceitou o “convite” do ministro Joseph Goebbels de escrever um romance antissemita. Em vez de cumprir o acordo, usou a cota de papel para escrever "O beberrão" (Der Trinker, no prelo pela Estação Liberdade), relato autobiográfico e crítico sobre o Terceiro Reich. Fallada nunca deixou a Alemanha, para o escândalo de alguns de seus contemporâneos. Essa vivência, no entanto, fez dele um narrador privilegiado dos crimes do regime nazista. Já com a saúde comprometida, escreveu "Morrer sozinho em Berlim" em menos de um mês e faleceu pouco depois, em fevereiro de 1947, semanas antes da publicação da obra.

Saiba Mais

• A primeira tradução do livro para o inglês, publicada em 2009, teve excelente recepção pela crítica e alavancou a obra ao status de best-seller global, publicado em mais de 20 idiomas.

• A edição brasileira inclui posfácio e fac-símiles de documentos históricos e dos arquivos da Gestapo referentes ao casal Hampel.

• O suspense de Fallada registra a vida cotidiana no auge do domínio nazista, mostrando aspectos pouco conhecidos do regime à época. O ritmo acelerado da narrativa interessará a leitores de John le Carré, Ken Follett e Graham Greene.

• As obras de Fallada foram adaptadas diversas vezes para cinema e TV. Em 2016 foi lançado o longa-metragem "Alone in Berlin", de Vincent Pérez, estrelando Brendan Gleeson, Emma Thompson e Daniel Brühl.

Trechos

“Moravam havia dez anos no mesmo prédio, mas nesse período Quangel tinha tentado evitar qualquer contato, especialmente com os Persickes — mesmo antes, quando o velho Persicke ainda era dono de um pequeno bar bastante decadente. A família tinha se tornado importante, o pai colecionava todos os cargos possíveis no partido e os dois filhos mais velhos estavam na SS; dinheiro não parecia ser problema por ali.

Mais um motivo para evitá‑los, pois todos nessa situação tinham de manter o prestígio no partido, algo que só era possível agindo em prol dele. Agir em prol dele significava denunciar outras pessoas, avisando, por exemplo: este e aquele ouviram uma rádio estrangeira. Por isso, havia muito Quangel queria ter tirado todos os rádios do quarto de Otto e os metido no porão. Naqueles tempos em que um era delator do outro e a Gestapo estava de olho em todos, o campo de concentração em Sachsenhausen ficava cada vez mais cheio e a guilhotina na prisão Plötzensee trabalhava sem parar, era impossível ser suficientemente precavido.” [p. 24]


“Enquanto mexia no móvel, Anna se decidiu. Hesitante, perguntou:

— Será que o que você está querendo fazer não é pequeno demais, Otto?

Ele parou com o que estava fazendo e virou a cabeça para a mulher, ainda agachado.

— Tanto faz se é pequeno ou grande, Anna — disse. — Se formos descobertos, custará nossos pescoços do mesmo jeito…

Havia algo de tão terrivelmente convincente nessas palavras, no olhar escuro e inescrutável de ave de rapina que Anna estremeceu. E naquele instante ela viu com nitidez diante de si o pátio de pedras cinza da prisão, o patíbulo preparado; na luz mortiça da manhã, seu aço não brilhava, mas era uma ameaça muda.

Anna Quangel sentiu um tremor. Tornou a olhar para Otto. Talvez ele tivesse razão: fosse a ação grande ou pequena, ninguém podia arriscar mais do que própria vida. Cada um agia de acordo com suas forças e condições. O principal: a resistência.” [p. 169]

“O membro da SS Dobat dá um soco em Escherich, que sente uma dor violenta, um repugnante gosto de sangue na boca. Em seguida, curva‑se para a frente e cospe alguns dentes sobre o tapete.

E enquanto faz tudo isso, e o faz de maneira mecânica, a dor nem é muita, pensa: Tenho de explicar tudo imediatamente. Claro que estou disposto a qualquer coisa. Buscas por toda Berlim. Espiões em cada prédio onde moram vários médicos e advogados. Faço tudo que vocês quiserem, mas vocês não podem simplesmente me encher de porradas, a mim, um antigo policial e detentor da Cruz de Mérito de Guerra!

Enquanto pensa febrilmente, Escherich procura escapar de maneira totalmente mecânica dos golpes do homem da SS e tenta falar, mas não consegue dizer nada por causa do lábio superior aberto e a boca sangrando; enquanto isso, o general Prall saltou diante dele, agarrou seu peito com ambas as mãos e começou a gritar.” [p. 362]

“— Quem sabe? E você ao menos resistiu ao mal. Não aderiu ao mal. Você, eu e os muitos aqui dentro, muitos em outros presídios e as dezenas de milhares nos campos de concentração… todos estão resistindo, hoje, amanhã.

— Sim, e daí vamos morrer e de que adiantou nossa resistência?

— Para nós, muito. Porque conseguimos nos sentir pessoas decentes até a morte. E muito mais para o povo, que será salvo por causa dos justos, como está escrito na Bíblia. Veja, Quangel, realmente teria sido cem vezes melhor se tivesse havido um homem que nos dissesse: Vocês têm de agir assim, esse é o nosso plano. Mas se tivesse havido um homem assim na Alemanha, então 1933 nunca teria acontecido. Dessa maneira, tivemos de agir individualmente, e individualmente começamos; todo homem vai morrer sozinho. Mas não é por isso que estamos sozinhos, Quangel, não é por isso que vamos morrer em vão. Nada acontece por acaso neste mundo, e, como lutamos pela justiça contra a violência cega, acabaremos vencedores.” [p. 509]

Ficha Técnica

Título: Morrer sozinho em Berlim
Autor: Hans Fallada
Tradução: Claudia Abeling
Gênero: Romance
Formato: 16 x 23 cm / 640 páginas
ISBN: 978-85-7448-275-0
Lançamento: 8 de novembro
Preço: R$ 84,00

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