Cidades | Absurdo ignorado

Degradação: lixão de garrafas pet enche o rio Anil, na área da Vila Palmeira

Problema foi denunciado por O Estado há exatamente um mês, mas nada foi feito; especialista chama atenção para a situação do rio; população reclama
Monalisa Benavenuto / O Estado19/10/2018

SÃO LUÍS - O descarte irregular de lixo tem gerado sérias consequências para populações que vivem próximo às margens de rios e regiões de mangue de São Luís. Na Vila Palmeira, a situação chama atenção devido à dimensão ocupada por garrafas pet (polímero termoplástico). De acordo com os moradores, o problema existe há muitos anos, sem nenhuma ação pública para reverter a situação. Na edição de 18 setembro, O Estado denunciou esta realidade, mas nada foi feito pelos órgãos competentes.

Resíduos deixados nas praias ou descartados pelas ruas da cidade em algum momento chegam aos corpos hídricos, causando prejuízos imensuráveis ao meio ambiente, principalmente à flora e fauna aquáticas, além de influenciar na qualidade de vida de comunidades. Próximo à Rua São Raimundo, na Vila Palmeira, uma ponte de madeira, construída pela comunidade, dá acesso às palafitas que servem de moradia para muitas famílias, que convivem diariamente com o “mar de pets”, que, apesar de assustador, já faz parte da rotina de moradores, como o estudante Matheus Santos, de 19 anos.

“Nasci e me criei aqui e sempre foi assim. Para a gente, é até normal. As crianças até brincam aí. Eu mesmo já brinquei muito. De uns anos para cá, aumentou muito a quantidade de lixo acumulado. Não consigo nem imaginar que isso tudo possa ser retirado um dia”, declarou.

Ainda de acordo com o estudante, o lixo acumulado é levado durante as cheias da maré e, devido à vegetação do mangue, acaba ficando represada. “Quando não havia tantas plantas, a maré trazia e levava o lixo. Agora que tem bastante vegetação, fica acumulado, porque não dá para passar entre as raízes e os galhos”, explicou. Ele contou ainda que a única ação para tentar, de alguma forma, reduzir a quantidade de resíduos no local foi promovida pela própria comunidade.

“Nem Prefeitura, nem Estado, nunca apareceu ninguém aqui para tentar fazer alguma coisa. Só os moradores se juntaram, há uns anos, e fizeram um mutirão para retirar um pouco do lixo, mas também não deu muito resultado”, destacou Matheus Santos.

Em outro ponto do bairro, na Avenida Sarney Filho, a realidade é semelhante. Apesar de possuir condições básicas de infraestrutura e saneamento básico, no fundo das casas, por onde passa um braço do rio Anil, o que se vê é uma imensa quantidade de resíduos. Desde sandálias a pedaços de isopor e, em maior número, garrafas pet. Para quem vive no bairro há mais tempo, restam apenas lembranças de quando as águas do rio eram balneáveis.

“Eu vivo aqui desde a fundação da Vila Palmeira, por volta da década de 1970. Quando eu era criança, tomava banho nesse rio. As pessoas pescavam peixes, pegavam caranguejos. Agora não tem mais nada além de lixo”, afirmou o aposentado Antônio Correia, de 73 anos.

Consequências
Para especialistas, a situação é preocupante e exige ações urgentes do poder público. A gestora ambiental Isabel Fontes
destacou algumas consequências geradas pelo acumulo de lixo na área.

“Além da poluição, há a contaminação do corpo hídrico por metais pesados, devido à diversidade de resíduos que existe no local. O plástico das garrafas, durante a decomposição, se fragmenta, e estudos recentes apontam um problema ainda mais sério, causado pelas micropartículas que são digeridas pela fauna aquática. Nesse cenário, a biota aquática é a mais prejudicada. Aliás, é bem difícil a sobrevivência em um ambiente como esse”, explicou.

Outro problema refere-se às comunidades ribeirinhas. De acordo com Isabel Fontes, por se tratar de uma área de mangue, a pesca e catação de mariscos acaba sendo prejudicada pela degradação do ambiente, já influenciada pela ocupação desregulada, influenciando a economia local e da comunidade. Além disso, a situação oferece risco para outros ecossistemas.

“Os mangues oferecem fontes importantes de alimento para muitas espécies. A contaminação intensa dessas áreas afeta a reprodução de espécies e ainda interfere nas condições climáticas da cidade, já que o mangue é fundamental para o equilíbrio do nosso clima”, frisou.

O que fazer
Para reverter a situação, algumas medidas precisam ser tomadas. Entre elas, a primordial é a reeducação ambiental da população, conforme esclareceu a gestora ambiental. “Antes de mais nada, é preciso conscientizar a população sobre esta problemática. Não só a comunidade que reside nas proximidades, mas de toda a cidade, porque esses resíduos não são gerados unicamente por aqueles moradores. Ali, há materiais levados pelo curso da água que, anteriormente, foram descartados de forma incorreta. É preciso expor à população os riscos que advêm do descarte irregular”, esclareceu.

Outra medida importante é a remoção dos resíduos para reestabelecer o equilíbrio do ambiente. “Apesar de haver grandes chances desse ambiente não voltar ao seu estado original, é preciso retirar todo esse material para que, pelo menos, melhorem as condições daquele local”, ressaltou. Além disso, a especialista destacou que uma fiscalização mais eficiente pode ser capaz de inibir e evitar situações como essa. “É importante garantir um maior controle sob essas áreas, pois elas são importantíssimas, tanto do ponto de vista ecológico quanto ambiental”, concluiu.

O Comitê Gestor de Limpeza Urbana informou, em nota, que mantém o serviço de coleta domiciliar sendo prestado de forma regular na Vila Palmeira. A coleta no bairro é feita às terças, quintas e sábados no período diurno. O órgão pede o apoio da população para fazer o descarte do resíduo doméstico de forma adequada, acondicionando-os em sacos plásticos e colocando em sua porta de acordo com os dias e horários da coleta para evitar o descarte irregular nas vias públicas, o que acarreta o acúmulo de lixo a céu aberto, causando diversos problemas à população. O Comitê informa ainda que desenvolve diversas ações de educação ambiental para conscientizar a população e que vai incluir a comunidade da Vila Palmeira no cronograma com o objeto de elaborar também um projeto de limpeza urbana para a área.

MEDIDAS PREVENTIVAS

Buscando incentivar a redução da poluição ambiental por plásticos, a ONU Meio Ambiente lançou a campanha “Se não dá para reutilizar, recuse”, com foco nos plásticos de uso único. Confira algumas dicas para reduzir a poluição de corpos hídricos:
1. Carregue sacolas retornáveis
Sacola de pano bem dobrada vai bem na mochila ou na bolsa e serve para aquela paradinha no supermercado na volta para casa. Evite as sacolas plásticas.
2. Adote um carrinho de feira
Adote um e se habitue a colocar os mantimentos dentro dele.
3. Evite embalagem excessiva de alimentos
Prefira produtos com poucas embalagens nos supermercados.
4. Compre produtos a granel
Alguns mercados, empórios e quitandas têm frutas frescas e secas, cereais e grãos a granel. Leve seus potes para trazer cheios e não peça para colocar em saquinhos.
5. Use garrafa reutilizável para tomar água
Carregar na bolsa ou na mochila uma garrafa reutilizável é uma ótima maneira de cortar o seu uso de plástico.
6. Diga não aos canudos de plástico
Se você gosta ou precisa, compre um de alumínio. E da próxima vez que pedir bebida, rejeite o canudo. Os canudinhos que vêm nos sucos embalados em TetraPak são reciclados pela marca.
7. Caneca pessoal
Copos de café de plástico ou isopor representam um grande problema de poluição. Se você bebe café no escritório, mantenha uma caneca em sua mesa de trabalho.
8. Diga não aos talheres descartáveis
Quem costuma fazer lanches ou refeições no trabalho pode dexar um jogo de talheres na gaveta.
9. Evite cosméticos com microplásticos
Eles estão presentes principalmente em esfoliantes e outros cremes abrasivos ou emolientes. Podem estar em formato de microesferas polietileno (PE), polipropileno (PP), polietileno tereftalato (PET), polimetilmetacrilato (PMMA), politetrafluoroetileno (PTFE) e nylon.
10. Envie para reciclagem todos os plásticos que você usar em casa.

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