Polícia | Barbárie

394 casos de violência contra idoso já foram registrados neste ano em SL

Roberto Elísio Coutinho, denunciado em vídeo em rede social, foi autuado pelos crimes de tortura, violência doméstica, ameaça e cárceres privado contra sua genitora; ele pode ser condenado a 20 anos de reclusão
Ismael Araujo27/05/2017
394 casos de violência contra idoso já foram registrados neste ano em SLRoberto Elísio Coutinho na delegacia, mostra tranquilidade ao depor sobre agressão a sua própria genitora (Flora Dolores / O ESTADO)

SÂO LUÍS - O bacharel em Direito Roberto Elísio Coutinho de Freitas, o Gordo, de 50 anos, pode responder por mais de 20 anos de cadeia pelos crimes de tortura, violência doméstica, ameaça e cárcere privado. Ele foi preso na manhã de sexta-feira, 26, na cidade de Raposa, sob acusação de agredir física e psicologicamente a sua genitora, Joseth Coutinho Martins de Freitas, de 84 anos, em sua residência, no bairro do Vinhais. Roberto Elísio teve prisão preventiva decretada e ainda na sexta-feira foi encaminhado ao Complexo Penitenciário de Pedrinhas. A Defensoria Pública do Estado (DPE) registrou, em 2016, 804 casos de violência contra o idoso na Ilha e 394 de janeiro a abril deste ano.

Desde a noite de quinta-feira, 25, está circulando na rede social um vídeo em que Roberto Elísio Coutinho aparece agredindo a sua genitora, a professora aposentada de uma universidade pública e que ainda sofre de Alzheimer, Joseth Coutinho Martins de Freitas. Na manhã de sexta-feira, a cúpula da Secretaria de Segurança Pública (SSP) apresentou o agressor à imprensa, na sede da Superintendência de Polícia Civil da Capital (SPCC), na Vila Palmeira.

A coletiva contou com a presença da subdelegada-geral da Polícia Civil, delegada Adriana Amarantes; do superintendente da SPCC, delegado Armando Pacheco, e de Igliana Freitas, titular da Delegacia do Idoso.

A delegada Igliana Freitas informou que ficou sabendo da ocorrência também por meio da rede social na quinta-feira e no mesmo dia comunicou o ato de barbárie à juíza titular da 8ª Vara Criminal, Oriana Gomes. Logo depois, o Poder Judiciário expediu o mandado de prisão preventiva contra o criminoso. A ordem judicial foi cumprida na manhã de sexta-feira.

Roberto Elísio Coutinho foi preso na residência da família, em Raposa. Segundo a delegada, ele vai ficar preso no Complexo Penitenciário de Pedrinhas à disposição da Justiça. Entre os crimes que serão atribuídos a ele estão o de tortura, violência doméstica, ameaça e cárcere privado, que tem pena acima de 20 anos de cadeia.

Vídeo
Em relação ao vídeo em que Roberto Elísio Coutinho aparece batendo com um pedaço de ferro em sua genitora, e ainda a agredindo psicologicamente, puxando à força o seu braço e lhe dando empurrões, a delegada declarou que foi gravado no começo deste ano pela mulher do acusado, nome não revelado.

A delegada também informou que há possibilidade de o homem ter agredido a idosa em outras oportunidades, já que as imagens do vídeo revelam a suspeita de que o ato de barbárie vinha sendo praticado com frequência. “Ainda bem que esse vídeo veio à tona e a polícia conseguiu prender o acusado”, declarou Igliana Freitas.

A delegada afirmou que cabe ao agressor, que se diz portador de esquizofrenia, provar essa situação na Justiça, por meio de exames médicos. À polícia, cabe concluir o inquérito e encaminhá-lo ao Poder Judiciário no prazo estabelecido.

Inquérito
O delegado Armando Pacheco, superintendente da SPCC, informou que o inquérito policial foi instaurado ainda na sexta-feira na Delegacia do Idoso, sob o comando da delegada Igliana Freitas, que tem prazo de 10 dias para concluí-lo.

Armando Pacheco declarou ainda que a polícia realizou uma revista na casa da idosa, no Vinhais, onde apreendeu um aparelho de DVR, munições de calibre 38, um distintivo da Polícia Federal e um contracheque em nome dela, que serão periciados nos próximos dias.

Por meio do contracheque da vítima, a polícia constatou que os proventos da idosa estão acima de R$ 38 mil, mas devido aos empréstimos consignados realizados recebe apenas a quantia de R$ 12 mil. “Esses empréstimos acabam resultando na suspeita de que o agressor estava consumindo o patrimônio da sua mãe”, explicou Armando Pacheco.

O delegado disse ainda que há suspeita de que Roberto Elísio Coutinho agredia também, física e psicologicamente, o seu genitor, nome não revelado, antes de sua morte, assim como a sua mulher e suas duas empregadas. A polícia vai investigar esses casos.

Exames
Uma equipe composta por policiais, assistentes sociais e psicólogos ainda na manhã de sexta-feira, 26, foi até a residência da idosa para levá-la para fazer os exames periciais. A delegada Igliana Freitas declarou que a vítima apresentava sinais de violência, principalmente na mão direita e no pescoço.

A idosa foi submetida a exame no Instituto Médico Legal (IML), no Bacanga. Ela também foi assistida por uma equipe da área médica e de assistentes sociais. “Estamos vendo a questão criminal e também a civil da vítima”, disse a delegada.

Ela declarou ainda que, no momento, a guarda da idosa vai ficar sob a responsabilidade do neto, nome não revelado, que reside no bairro São Francisco, mas será monitorada pela equipe da Delegacia do Idoso.

Esquizofrenia
“Eu tive uma boa criação. A minha mãe não merecia isso e eu sei que errei”, afirmou Roberto Elísio Coutinho, que disse ainda que, há três anos, vem sofrendo de esquizofrenia e não estava se tratando. Ele mora com a mãe idosa em companhia de sua esposa e de seu enteado.
Em relação aos maus-tratos, ele disse que somente teria agredido a idosa uma única vez devido à vítima não querer comer. “Eu sofro de esquizofrenia e em determinado momento perco a cabeça, mas vou procurar tratamento”, desabafou. l

Entenda o caso

Atendimento ao idoso

O Disque 100, canal da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, os conselhos Estadual e Municipal de Defesa dos Direitos do Idoso, Delegacia do Idoso, Promotoria do Idoso do Ministério Público, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) e Centro Integrado de Apoio e Prevenção à Violência contra a Pessoa Idosa (Ciapvi) da Defensoria Pública do Estado (DPE/MA) são órgãos de ajuda e servem para denunciar a violência contra o idoso.

A coordenadora do Ciapvi, assistente social Isabel Lopizic, disse que o centro é onde a pessoa idosa recebe acompanhamento psicológico, com encaminhamento aos órgãos de atenção. Em casos de agressões físicas, por exemplo, o encaminhamento é feito à Delegacia do Idoso. Em caso de denúncia de empréstimo indevido ou necessidade de atendimento hospitalar, a Defensoria entra com ação judicial; em caso do uso indevido de benefício por membros da família, é feita a mediação para dirimir o assunto.

Ela ainda informou que desde o mês de janeiro deste ano até o final de abril 615 pessoas foram atendidas no Ciapvi e dentre estes atendimentos ficaram comprovados 394 casos de violência contra o idoso na Ilha. Na maioria dos tipos de violência foi de negligência, psicológica e abuso financeiro e sendo como autores filho, neto e sobrinho. Os bairros de maior incidência da violência denunciada foram na Cidade Operária, São Francisco, Anjo da Guarda, Coroadinho e Centro.

Saiba mais

O promotor do idoso, José Cutrim, informou que o neto de Joseth Coutinho, nome não revelado, havia denunciado o pai de maus tratos contra avó, no último dia 23. Inclusive, o Ministério Público tinha solicitado à juíza titular da 8ª Vara Criminal, Oriana Gomes, uma medida protetiva.

Relembre

Violência contra o idoso na Ilha este ano

Atendimento: 615 pessoas foram atendidas pela equipe do Centro Integrado de Apoio e Prevenção à Violência contra a Pessoa Idosa (Ciapvi) este ano.

Comprovados: 394 casos

Tipos de Violência mais denunciados: negligência, violência psicológica e abuso Financeiro

Bairros de maior incidência: Cidade Operária, São Francisco, Anjo da Guarda, Coroadinho e Centro

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