Cidades | Erosão

Força da maré destrói calçadão na Praia da Ponta d’Areia

Paredões de pedra foram quebrados e barracas de venda de coco estão comprometidas pela força das águas; bares já foram destruídos nas marés altas; problema é histórico e existe desde o início do processo urbanístico na área
Adriano Martins Costa / O Estado09/02/2017
Em 1975, quando a fotografia aérea foi feita, a Ponta d’Areia ainda tinha uma grande faixa de areia e não havia nenhuma urbanização; em 2011, a faixa de areia já era bem menor e havia prédio e casas na área

SÃO LUÍS - Os paredões de pedra do calçadão da Ponta d’Areia, na Avenida dos Holandeses, mais uma vez não aguentaram a força da ma­ré e ficaram destruídos em algumas partes. Até mesmo as barracas que vendem coco estão correndo o ris­co de serem levadas pelas águas em algum momento próximo, se algo não for feito urgentemente.

Mas, segundo os barraqueiros, urgência não é algo que o poder público tenha. Tome-se por exemplo uma árvore derrubada pelas ondas. Testemunhas dizem que ela caiu há mais de um mês, mas até hoje ninguém se propôs a retirar os restos do vegetal. “Ela está aí e vai ficar até que o mar a leve”, comentou um dos barraqueiros, que não quis se identificar.

O problema é tão grave que em determinado ponto até um poste de iluminação foi levado pelas águas, restando no lugar somente os fios expostos, que à primeira vista ainda estariam ligados à corrente e poderiam eletrocutar alguém.

Quem olha de longe, pensa até que uma bomba foi jogada no local ou uma máquina passou derrubando tudo. Em outro ponto, a força da maré penetrou o calçadão de ponta a ponta e saiu levando tudo. Até mesmo as enormes pedras com dezenas de quilos de peso.

Calçadão da Ponta d’Areia foi danificado, fios estão expostos e barraca de venda de coco ficou comprometida

Problema histórico
A destruição do calçadão da Ponta d’Areia, além de bares, casas, asfalto e outras estruturas construídas ao redor da orla na região, é um problema histórico que existe praticamente desde que começou o processo urbanístico na área.

Pesquisadores dizem que o local onde se encontra a praia, e que hoje abriga o bairro Ponta d’Areia, possuía uma vegetação exuberante e dunas recobertas por vegetação típica de áreas costeiras. A construção da ponte que liga o São Francisco ao Centro Histórico, na dé­cada de 1970, facilitou o acesso à localidade e a especulação imobiliária, resultando em enormes modificações na paisagem natural.

O professor Joherbeth Carlos Lima Rêgo, doutorando em Dinâmica dos Oceanos e da Terra e Mestre em Biodiversidade e Conservação, conta que a verticalização na praia da Ponta d’Areia transformou a paisagem natural drasticamente. “Ao longo dos anos, foram construídos muros de variadas extensões dentro da própria praia para proteção de um corredor de prédios de variadas funções, tais como hoteleiros, moradias (condomínios) e diversas atividades econômicas, visando principalmente ao turismo e à classe alta da sociedade ludovicense. As construções dessas avenidas e edifícios não respeitaram a configuração natural das praias, tendo sido necessária a construção de aterros e muros de contenção dentro da praia, alterando toda a dinâmica deste ambiente”, explica.

Rodolfo José Ângulo, geólogo, doutor em Geologia Sedimentar pela Universidade de São Paulo, pesquisador citado por Joherbeth Lima Rêgo, afirma que a linha de costa não deve ser motivo de intervenção do homem, sob o risco de se agravar as praias resultando em sérios problemas de erosão.

Resolução
Esse tipo de intervenção inadequada e os problemas decorrentes, em geral, só podem ser contor­nados após grandes in­vestimentos, muitas vezes, ou quase sempre, a cargo do poder público, como ocorreu com a construção do espigão costeiro. “É importante destacar que em sua maioria a população não tem poder aquisitivo para desfrutar dos luxuosos empreendimentos construídos em plena praia, que hoje sofre a ameaça da erosão marinha causada principalmente pelos fatores antrópicos”, ressalta o pesquisador.

Mais urgente, e barato, afirma o pesquisador, seria permitir o estabelecimento de faixas de segurança mínimas que deveriam ser respeitadas para a construção de novas edificações. Isso favoreceria os processos de sedimentação e erosão naturalmente e sem as necessidades de obras de contenção “Sem contar na preservação de cordões de dunas com toda a morfologia e a ecologia da praia contribuindo com toda a biodiversidade e manutenção da qualidade visual da paisagem praiana”, destacou.

Mas o que se vê é que os empreendedores não têm aprendi­do nada com a Ponta d’Areia e já vêm realizando especulação em outros espaços impróprios, como vem ocorrendo na Praia de São Marcos.

SAIBA MAIS

Segundo a pesquisadora Celia Regina de Gouveia Souza, a erosão costeira ou praial pode trazer várias consequências não somente à praia, mas também a vários outros ambientes, naturais e artificiais, na zona costeira. Todos eles podem ser observados, em maior ou menor grau, na Ponta d’Areia:
- Redução na largura da praia
- Desaparecimento da zona de pós-praia e, com o passar do tempo, da própria praia
- Perda e desequilíbrio de habitats naturais pela destruição de praias ou de alguma de suas zonas, dunas, manguezais, florestas de “restinga” que bordejam as praias e costões rochosos, com alto potencial de perda de espécies que habitam esses ambientes (ex.: o crustáceo popularmente conhecido por “maria farinha”, que habita a pós-praia);
- Aumento na frequência e magnitude de inundações costeiras, que são inundações na planície costeira causadas por ressacas (marés meteorológicas) ou eventos de marés de sizígia muito elevados;
- Aumento da intrusão salina no aquífero costeiro e nas drenagens superficiais da planície costeira;
- Aumento da erosão na porção a jusante dos sistemas fluviais estuarinos e, consequentemente, erosão em planícies de maré e manguezais, com possível alteração da circulação estuarina;
- Perda de propriedades e bens públicos e privados ao longo da linha de costa;
- Destruição de estruturas artificiais paralelas e transversais à linha de costa construídas pelo homem;
- Problemas e até colapso de sistemas de esgotamento sanitário (obras soterradas e emissários submarinos);
- Diminuição da balneabilidade das águas costeiras por incremento da poluição e contaminação de águas e sedimentos;
- Perda de recursos pesqueiros;
- Perda do valor paisagístico da praia e/ou da região costeira;
- Perda do valor imobiliário de habitações costeiras;
- Comprometimento do potencial turístico da região costeira;
- Prejuízos nas atividades socioeconômicas da região, ligadas ao turismo e ao lazer na praia.

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