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Um grito por trás da arte

Grupo de artistas cria coletivo para denunciar questões como cultura de estupro por meio de diversas ações, como oficinas de quitapenas; hoje, o grupo vai se reunir para confeccionar bonecas em referência a violência sexual contra as mulheres sírias
Bruna Castelo Branco/ Editora do Alternativo16/12/2016
Um grito por trás da arte Quitapenas representam preocupações em relação a violência contra a mulher (Divulgação/Thaís Rodrigues)

Apropriando-se de uma tradição cultural da Guatemala que consiste em confeccionar pequenas bonecas chamadas de quitapenas, dadas de presentes às crianças para que elas contem seus medos e preocupações antes de dormir, um coletivo formado por poetas, fotógrafas, quadrinistas e outras expressões artísticas, com representantes em São Paulo, Rio Grande do Sul e Maranhão, decidiu ressignificar a tradição, usando a simbologia para além do universo infantil. Na arte do coletivo, as bonecas são instrumentos para denunciar, revelar e discutir questões em um contexto feminista, como o papel das mulheres na luta contra a cultura do estupro e as consequências do machismo cotidiano.

Hoje, em São Luís, São Paulo e em Porto Alegre acontecem ações simultâneas de confecções das quitapenas em referência às mulheres sírias, que, além dos horrores dos conflitos armados no país, são constantemente vítimas de violência sexual. Por causa dessa situação, muitas mulheres estão pedindo a religiosos a permissão para morrer. Suicídios e assassinatos das mulheres das famílias sírias estão virando uma assombrosa rotina, na tentativa de evitar que elas sejam capturadas e estupradas pelas forças do regime de Bashar al-Assad, da milícia libanesa do Hezbollah ou do Irã.

“A vigília é direcionada às mulheres de Aleppo, vamos fazer em sincronia com amigas lá de Porto Alegre e São Paulo, numa tentativa de estarmos simbolicamente unidas pensamos em fazer quitapenas durante o dia até a madrugada atingindo a exaustão e depois soltarmos essas bonequinhas entrelaçadas como se fossem velas na água. Nós mulheres somos aquáticas e a água é um elemento forte. Que essa simbologia possa tecer uma poética da união, cada bonequinha significando uma vida em risco. Podemos tecer uma poética da união porque resistência ainda não é liberdade”, explica a poeta Jorgeana Braga, uma das articuladoras do coletivo no Maranhão.

Em São Luís, o encontro acontece às 16h, na casa da poeta Jorgeana Braga e é aberto para todas as mulheres que quiserem participar. As bonecas serão lançadas ao mar, em um ritual de reconhecimento de que a dor das mulheres sírias ultrapassa as fronteiras geográficas e dilacera a alma de todas as outras.

Coletivo

O grupo é articulado em São Paulo por Grazzi Yatnã e Ana Sigrist; no Rio Grande do Sul por Aline Daka, Diane Sbardelotto e Rafaela Barbosa; no Maranhão, por Jorgeana Braga, Thaís Rodrigues, Eva Braun, Camila Cutrim, Hérika Fernandes, Su Borges, Cassandra e Michele Teixeira. O grupo começou a articular ações desde o fim do primeiro semestre deste ano e já fez oficinas de quitapenas, porém, essa é apenas uma parte do projeto, a ideia é promover outras ações que mobilizem e gritem à sociedade sobre a importância em debater a violência contra as mulheres por intermédio da arte.

"As quitapenas são o carro-chefe das nossas discussões, pois quando as pessoas vão fazendo as bonequinhas vai saindo coisas do universo delas. Saem figuras femininas ligadas à história dessas pessoas", explica Jorgeana Braga.

Registro

Em São Luís, a primeira ação ocorreu no início deste mês, no Festival BR-135 e teve como foco a confecção de quitapenas coreiras, uma referência à dançarina Ana Duarte, morta em um assalto no início deste ano. As bonecas confeccionadas durante a oficina foram colocadas em árvores do Centro Histórico. Além da homenagem a Ana Duarte, a escolha pelas coreiras serviu para simbolizar a importância de se debater questões de violência contra a mulher dentro do universo da cultura popular. "Ficou interessante as quitapenas de cabeça para baixo nas árvores, uma simbologia mesmo daquelas coreiras, em posição de violência, ao mesmo tempo ficou uma coisa poética, porque foram bonequinhas construídas dentro de uma história de cada uma daquelas pessoas que participaram", relembra Jorgeana Braga.

As primeiras atividades foram registradas por Thaís Rodrigues, que colheu depoimentos das pessoas participantes e a intenção é fazer um documentário com essas impressões. "Nós também levaremos a oficina para ser realizada em bibliotecas comunitárias trabalhando em parceria com a Rede Leitora Terra das Palmeiras em bairros como Cidade Operária e Cidade Olímpica, Vila Janaína e Santa Clara. Levar também as quitapenas para fazer essa discussão lá", adianta Thaís Rodrigues.

Ainda em fase embrionária o projeto já ganha novas proporções, um dos planos para o ano que vem é lançar um selo do coletivo, para divulgar os projetos que já são desenvolvidos pelas participantes do grupo. “Lá para a metade do ano que vem a gente quer lançar um selo, algo ligado à editoração, outras ações que a gente pode fazer, mas com um selo nosso", finaliza Jorgeana Braga.

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Como participar

Quem quiser participar pode entrar em contato pelo fone: 99138-5657 ou pelo e-mail: jorgeanabraga@hotmail.com

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