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Em rede social, médico faz apelo por materiais para a Santa Casa

Abdon Murad é o provedor do hospital e, diante da situação caótica em que a unidade se encontra, pediu ajuda em alimentos e materiais
14/07/2016
Farmácia da Santa Casa está quase sem medicamentos e materiais; médico faz apelo

Um apelo por alimentos e materiais hospitalares, feito ontem por meio de uma rede social, demons­trou todo o desespero do provedor da Santa Casa de Misericórdia, o mais antigo e tradicional hospital do Maranhão. O médico Abdon Murad pediu ajuda para a unidade, que está em declínio e teve de demitir mais de 80 profissionais por não ter como pagá-los.

“A Santa Casa precisa da ajuda da sociedade maranhense. Solicitamos a doação de gêneros alimentícios não perecíveis”, escreveu Abdon em sua página do Facebook, que tem mais de 4.900 amigos agregados. O médico ainda fez uma segunda postagem, em seguida à primeira, em que reafirma que o hospital atravessa a pior crise de sua história, porque recebe pelos serviços prestados apenas recursos do Serviço Único de Saúde (SUS) e a tabela não é reajustada há 14 anos. “Fazer atendimento de saúde é muito caro. Solicitamos, também, doações de lu­vas, gaze, atadura gessada”, pediu.

Até a tarde de ontem, as duas postagens tiveram, juntas, 65 compartilhamentos, 132 curtidas e 19 comentários. A maioria lamentando a situação a que o hospital chegou. Outros exigem que o governo faça alguma coisa e pe­dem até que uma lei seja criada para garantir recursos à unidade.

Crise financeira
Há anos o hospital atravessa uma crise financeira. Em janeiro deste ano, a Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos (CMB) emitiu uma nota pública em que alertava para a situação de calamidade que essas instituições de saúde enfrentam em todo o país por causa do repasse insuficiente de recursos.

Na época, a Santa Casa de Misericórdia de São Luís somava dívida de cerca de R$ 900 mil. Hoje, seis meses depois, esse valor é de R$ 1,1 milhão. Os débitos forçaram a direção da unidade a demitir 89 funcionários na terça-feira, dia 12, e a diminuir 75% de sua capacidade de realização de cirurgias. Isso derrubou a quantidade de procedimentos de 60 para 15 por dia.

O problema é que, como recebe por serviço prestado, o hospital agora se vê amarrado a um círculo vicioso, já que com menos procedimentos menos dinheiro entra para o caixa da instituição.

Valores
Os valores que são pagos pelo SUS à Santa Casa beiram o irrisório. Conforme explicou Abdon Murad em seu post-pedido, há 14 anos a tabela do SUS não é reajustada, ou seja, o hospital trabalha com valores de 2002, quando salário mínimo era de R$ 200,00. E, por uma curetagem pós-abortamento, que exige internação e diversos outros cuidados, só é pago o valor de
R$ 109,21.

Um parto normal não rende mais que R$ 267,70 ao hospital e R$ 175,00 ao médico que vai realizar o procedimento.

Além dos gastos com material e profissionais, por dia o hospital serve em média 200 refeições, podendo variar para mais ou menos, dependendo da demanda.

Apelo feito em rede social

SAIBA MAIS

Histórico

Não se sabe ao certo quando a Santa Casa do Maranhão surgiu. Especialista divergem, mas colocam a data por volta de 1622 e 1623. Conforme conta Agostinho Júnior Holanda Coe, doutor em História das Ciências e da Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz-RJ, ainda no século XVII a Santa Casa exercia grande influência nas decisões locais. Possuir um cargo dentro da Misericórdia, quase sempre significava um futuro político promissor na cidade. Em matérias de bens, a entidade chegou a possuir diversos terrenos, prédios e salas em São Luís e Alcântara, além de um cemitério.

Durante a primeira metade do século XX a Santa Casa era mantida com recursos públicos e doações particulares. Contudo, ao final da década de 50 o estado parou de prover verba para o hospital. Coincidiu, na mesma época, que o médico José Duailibe Murad assumisse o papel de administrador da entidade. Durante os anos em que ficou à frente do hospital, ele concretizou algumas das maiores benfeitorias, incluindo a ampliação de pavilhões, centro cirúrgico e a criação do primeiro hospital para problemas de coração em São Luís: o Hospital do Coração, que depois veio a receber seu nome.

Em 1988, a Santa Casa, assim como demais hospitais filantrópicos, passou a ser mantidos pelo SUS, mediante o esquema de serviços prestados.

Surgimento

As Santas Casas de Misericórdia surgiram no Brasil no início do século XVII, tendo a frente a Irmandade da Misericórdia, ordem católica de orientação jesuítica.

A primeira Santa Casa foi fundada por Bráz Cubas, no ano de 1543, na Capitania de São Vicente (Vila de Santos), seguida pela de Vitória-ES, em 1545, pela da Bahia em 1549 e a do Rio de Janeiro em 1582. A Santa Casa do Maranhão seria a nona mais antiga do País e sua sede própria, na Rua do Norte, só foi inaugurada em 1814.

Em 1826, a entidade passou a dar aulas de Anatomia e Cirurgia, já no início do século XX foi implementada uma escola de cirurgiões. De 1957 até 1991 o local foi um dos hospitais escola da Faculdade de Ciências Médicas do Maranhão.

FAÇA SUA DOAÇÃO

As doações para a Santa Casa estão sendo recebidas no próprio hospital, em três setores diferentes, em horário comercial: administração, aos cuidados de Adriana França, almoxarifado, com Jane Diniz e internação, com Elisabete Ribeiro. Segundo Abdon Murad, a unidade precisa de praticamente tudo, mas alguns materiais como medicamentos, são muito caros e demandam um acompanhamento mais específico para a compra, por isso ele pediu apenas luvas, gase, atadura gessada e alimentos.

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