O Mundo | Na Nigéria

Crise migratória alimenta tráfico de meninas nigerianas para a Europa

Jovem descreve descreveu os três anos em que foi obrigada a vender seu corpo, apanhou, sofreu ameaças sob a mira de arma e foi forçada a assistir enquanto uma virgem de 14 anos era estuprada com uma cenoura
05/06/2016 às 07h00
Crise migratória alimenta tráfico de meninas nigerianas para a EuropaMary tinha 16 anos quando foi aliciada (Reuters)

Senegal - Uma promissora estudante nigeriana que sonhava em fazer faculdade, Mary tinha 16 anos quando uma mulher procurou sua mãe em sua casa e se ofereceu para levar a adolescente à Itália para encontrar trabalho.

Pressionada a ir por sua família, que esperava que ela em breve os tirasse da pobreza, Mary acabou sendo levada por traficantes à prostituição.

Com a voz vacilante, Mary descreveu os três anos em que foi obrigada a vender seu corpo, apanhou, sofreu ameaças sob a mira de arma e foi forçada a assistir enquanto uma virgem de 14 anos era estuprada com uma cenoura antes de ser enviada às ruas de Turim, no noroeste da Itália.

Depois de ser presa pela polícia italiana, Mary foi repatriada ao Estado de Edo, no sul da Nigéria, em 2001, mas sua família a rejeitou e ela partiu, sentindo-se fracassada.

"Eu voltei sem nada", disse Mary, hoje com 35 anos, à Fundação Thomson Reuters na cidade de Benin, em Edo. "Eu odiava a mim mesma."

O sofrimento de Mary terminou há 15 anos, mas um número crescente de meninas nigerianas como ela são traficadas para a Europa —principalmente à Itália— e obrigadas a se prostituir por bandos que se aproveitam do caos provocado pela crise migratória, segundo ativistas que combatem a escravidão.

Milhares de mulheres e meninas são atraídas à Europa todos os anos com a promessa de trabalho, depois ficam presas por enormes dívidas e ligadas aos traficantes por um ritual religioso —a maldição do juju.

"As vítimas estão ficando mais jovens, pois as meninas, principalmente as das áreas rurais, dão mais atenção às histórias positivas das que chegaram à Europa e não acabaram na prostituição", disse Katharine Bryant, do grupo de direitos Walk Free Foundation.

Ela falou antes do lançamento do terceiro Índice Global da Escravidão, que descobriu que a Nigéria tem o maior número de escravas do mundo —875 mil— e é uma fonte importante de mulheres traficadas à Europa e vendidas para o trabalho sexual.

Ligadas pelo Juju

Mais de 90% das mulheres nigerianas traficadas para a Europa vêm de Edo, um Estado com uma população de cerca de 3 milhões, de maioria cristã, segundo a ONU.

Embora Edo não seja dos Estados mais pobres da Nigéria, sua história de migrações à Itália alimentou as esperanças dos moradores de conseguirem dinheiro fácil na Europa, o que deixou as pessoas vulneráveis aos traficantes, segundo a Organização Internacional para Migrações (IOM).

Antes de ir à Europa, mulheres e meninas devem assinar um contrato com os traficantes para financiar a mudança, acumulando dívidas de até US$ 100 mil. Depois têm de selar o pacto com um ritual de juju.

"Fui levada ao santuário de um médico nativo e me disseram para morder o pescoço de uma galinha para adicionar seu sangue a um preparado feito com pedaços do meu cabelo, unhas e minha roupa íntima", disse Mary.

Essa crença na magia negra faz que as vítimas temam que elas ou seus parentes adoeçam ou morram se elas não pagarem a dívida.

A maioria das mulheres e meninas sabem que terão de vender sexo, mas são pressionadas por suas famílias e enganadas pelos traficantes, segundo a Agência contra o Tráfego Humano da Nigéria (NAPTIP).

Muitas não têm ideia de que viverão sob o controle de "madames" mais velhas e serão obrigadas a trabalhar durante vários anos para saldar suas dívidas, segundo o Escritório contra Drogas e Crime da ONU (Unodc).

As madames, que formam quase a metade dos traficantes da Nigéria, são na maioria ex-vítimas que visam outras para escapar da prostituição, perpetuando o ciclo de exploração, disse a Unodc em seu último relatório global sobre tráfico humano.

Crise migratória

Os traficantes e os bandos na Nigéria hoje exploram a crise migratória na Europa —levando as meninas para a caótica Líbia antes de cruzar o Mediterrâneo para a Itália em barcos frágeis e sobrecarregados, disse Bryant, da Walk Free Foundation.

Mais de 5.600 mulheres e meninas nigerianas chegaram à Itália por mar no ano passado, contra 1.200 em 2014, e pelo menos quatro em cada cinco foram traficadas para o comércio sexual, disse a IOM.

Pelo menos 1.250 nigerianas pousaram na Itália este ano, contra 373 no mesmo período em 2015, segundo dados da IOM.

Os traficantes também levam as vítimas à Europa de avião, usando documentos forjados e voando via outros países da África ocidental para evitar suspeitas, disse Mikael Jensen, da Unodc.

Os aeroportos britânicos como Gatwick são cada vez mais usados como pontos de entrada por grupos de traficantes da Nigéria com documentos falsos, disse a polícia espanhola no início deste ano.

"Muitos traficantes são cuidadosos com sua mercadoria, não querem correr o risco de uma perigosa travessia por mar", disse Jensen.

Cerca de 3.770 migrantes e refugiados morreram cruzando o Mediterrâneo em 2015, o ano mais mortífero até hoje para os que fogem de conflitos e da pobreza, segundo a IOM.

"Retraficadas"

O tráfico humano por bandos do crime organizado da Nigéria é um dos maiores desafios que enfrentam as forças policiais de toda a Europa, segundo a agência internacional Europol.

A falta de coordenação entre os países europeus e a Nigéria permite que os traficantes ajam com impunidade, disse Kevin Hyland, que foi indicado primeiro chefe antiescravidão da Grã-Bretanha em 2014.

"Houve certo progresso, mas é um plano detalhado e reativo, mais que proativo", disse Hyland.

Arinze Orakwe, uma autoridade antitráfico nigeriana, disse que mais países europeus deveriam criminalizar o comércio do sexo para conter o número de nigerianas traficadas para a prostituição na Europa.

"Se ninguém comprar, ninguém venderá", disse o membro da NAPTIP, que resgatou cerca de 1.340 vítimas na Nigéria no ano passado e trabalha com ONGs para ajudá-las.

A Fundação para Erradicação do Trabalho Infantil e do Tráfico de Mulheres (Wotclef na sigla em inglês) veste e alimenta as vítimas, oferece aconselhamento e tenta reuni-las a suas famílias.

"Mas às vezes as famílias são hostis e não se interessam em recebê-las de volta", disse a coordenadora da Wotclef, Veronica Umaru.

Desiludida pela decepção de seus pais ao voltar para casa, Mary esperou retornar à Itália antes de ser enviada à Girls' Power Initiative, uma ONG nigeriana que a abrigou, instruiu para dirigir um negócio e a incentivou a ajudar outras vítimas.

Mas Mary diz que muitas ex-vítimas foram retraficadas para a Itália, e teme que não estejam fazendo o suficiente para deter os traficantes ou convencer as mulheres e meninas e não ir para o exterior para se prostituírem.

"As meninas hoje, ao contrário de mim, sabem exatamente o que as espera quando concordam em ir à Itália para trabalhar", disse Mary, chorosa. "Mas elas não compreendem o trauma que vão enfrentar."

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