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Nas asas do grafite

Naldo Saori, premiado duas vezes no Salão de Arte de São Luís, exporá seus trabalhos noSurfest, Festival Independiente de Graffiti y Street Art, na Colômbia
Carla Melo / Da equipe de O Estado23/02/2016
Nas asas do grafite

O artista gráfico maranhense Naldo Saori está de malas prontas e embarca hoje para a Colômbia, onde representará o Brasil no Festival Independiente de Graffiti y Street Art Surfest. O evento, que começa amanhã e prossegue até o dia 7 de março, tem como objetivo o intercâmbio cultural entre artistas urbanos tomando como cenário principal a Colômbia.

Com trabalhos espalhados por vários locais de São Luís, o grafiteiro autodidata subverte, no seu fazer artístico, as noções dos espaços reconhecidos como áreas estéreis, transformando-os em possibilidades poéticas em uma relação entre seu trabalho, o espaço escolhido e quem o observa.

Como quase todos os artistas gráficos, Naldo Saori começou com a pichação, mas logo foi conquistado pelo grafite. E com esta arte, o jovem de 28 anos e que já contabiliza 15 anos de carreira, imprimiu sua marca em murais pela cidade e também em outras cidades do Brasil e exterior.

Entre suas experiências estão a premiação, por duas vezes, no Salão de Arte de São Luís. No IV Salão, teve a obra “Sonhar com dentes” entre as premiadas pelo júri técnico. Na edição seguinte, conquistou outro prêmio, com “Nascendo do Sexto”. Em outubro do ano passado, o grafiteiro representou o Brasil na Cidade do México em um dos maiores eventos de grafite e arte contemporânea do mundo, o Meeting of Styles.

Além de pintar em suportes como muros e paredes da cidade, Naldo Saori também desenvolve projetos em outros suportes, a exemplo de telas e painéis artísticos, alguns pintados em ambientes de grandes empresas como Vale e Cemar. A primeira exposição, “Ser sincero”, ocorreu em 2013, no Centro Cultural da Juventude, em São Paulo. No mesmo ano, ele foi convidado a participar do I Festival internacional de Arte Urbana do Brasil, em Fortaleza. Em São Luís, participou das exposições Urban Gallery, no Rio Anil Shopping. Em entrevista ao Alternativo, o artista fala de sua carreira, projetos e outros assuntos.

- Como começou sua relação com o grafite?

Comecei a fazer grafite a partir do contato com o spray, pela pichação, e depois desse período comecei a riscar alguns desenhos no chão da minha rua com giz. Um dia, um conhecido me disse que o que eu fazia parecia com grafite. Perguntei a ele o que era grafite e a partir disso comecei uma busca do que era isso, vi alguns grafites antigos na rua, depois fiquei sabendo que iriam abrir um curso no Centro de Cultura Negra de São Luís. Me inscrevi no curso, cheguei a ir em algumas aulas, mas deixei e voltei a pinchar. Um dia estava passando em frente a uma banca de revista e vi uma revista sobre grafite, fui imaginando como era a técnica, comprei uns sprays coloridos e comecei a reproduzir uns desenhos que tinha em meu caderno, na parede do meu quintal. Isso ainda não era grafite, mas começou a ser quando senti que estava pronto para fazer meu trabalho na rua, sendo essa a essência da arte do grafite.

- Você está se preparando para participar de um evento internacional. O que isto significa pra sua carreira?

Em Outubro de 2015, representei o Brasil na Cidade do México em um dos maiores eventos de arte urbana e contemporânea do mundo. Agora vou para a Colômbia, onde também farei residência artística. Quero adquirir mais conhecimento e qualificação profissional, de forma a ampliar minha produção artística para outros países, estabelecendo-me dentro do mercado da Street Art mundial.

- Como você define seu estilo? O que gosta de expressar em seus trabalhos?

Construções criativas, que têm como característica marcante um repertorio de personagens femininos com traços orientais, que em harmonia contrastam com formas abstratas, grafias desordenadas, simbolismos, e cenários lúdicos elaborados a partir de um processo de ritual de criação e produção, com apelo ao lúdico e a traços simples que remetem ao surrealismo. Gosto de retratar o amor, utilizando de simbolismo.

- De onde vem a inspiração para as pinturas?

Não sei explicar isso, só sei que vem naturalmente. É até engraçado, mas parece às vezes que alguém está segurando na minha mão e fazendo o desenho. Fico me perguntando se sou eu mesmo que faço isso?!.

- Das intervenções urbanas que você já fez em São Luís, quais destacaria e por quê?

Foi um grafite que fiz na Avenida dos Holandeses, que atualmente não existe mais, mas foi eternizado no momento que cedi o uso de imagem para o Banco do Nordeste. Eles publicaram meu trabalho no calendário do Banco, referente ao ano de 2015.

- E fora da cidade, como tem sido a receptividade de seu trabalho e como você tem se articulado para expor fora?

Quando exponho meu trabalho em outras cidades do Brasil e do exterior, consigo conquistar o “espectador” aquela pessoa que diz: “Mas que pintura poética e fina, isso é grafite?”. Falam assim, pois consideram o trabalho diferente do padrão convencional. Quanto a expor fora, não articulo nada, meu trabalho sempre se dá de forma natural, baseando- se no fazer artístico. As pessoas gostam do que produzi e posteriormente me procuram e convidam para outros eventos e assim segue.

- Você grafitou com Os Gêmeos quando eles estiveram em São Luís. Como foi dividir a cena com nomes tão fortes quando o assunto é arte urbana no Brasil?

Foi muito gratificante. A realização de um sonho. Tive a sorte de encontrá-los no restaurante da empresa Vale na época que trabalhava lá. Conversei com eles, mostrei meus trabalhos e ao verem logo perguntaram se não queria pintar um muro com eles. A Vale apoiou a ideia da realização desta intervenção, que foi realizada nas paredes da estação ferroviária da empresa.

- Como você avalia o movimento do grafite em São Luís? Achas que tem crescido e adquirido mais adeptos?

Hoje o movimento tem crescido na cidade, mas com muitos trabalhos chamados de “BOMB”, que são realizados de forma não programada, muitas vezes com pouco material, não tendo um alcance muito maior em relação a uma “produção” propriamente dita, aquele que definimos como grafite que é programado, com uma ideia definida, com recurso para desenvolver o trabalho, de forma a ter mais impacto e um peso artístico para a sociedade.

- O que incentiva outros artistas a entrar neste universo?

Atualmente, o movimento do grafite explodiu de forma crescente no mundo todo, fazendo ser visto e valorizado. Quando falo de valor me refito a dinheiro, muitos designers, arquitetos e estudantes de arte em faculdades começaram a desenvolver grafite no mundo, muitos por verem a arte como uma forma fácil e rápida de promover seu trabalho e ganhar dinheiro. Nada contra, cada um faz se tiver vontade, mas se perdeu com isso a essência do grafite, que era de um pichador que desenha, começa fazer graffiti, pega uma grana, compra material para grafitar a cidade pelo simples fato de se sentir bem, propagando a arte na rua, transformando a cidade em uma galeria a céu aberto. Vendo que aquele desenho que tinha feito no caderno, tomou cor e proporção e de uma forma a gente se sentir valorizado por esse grafite que fez na cidade e não apenas a ideia de fazer visando lucro e nenhum beneficio posterior. O artista tem que fazer arte para viver, ganhar dinheiro com o que faz, mas que tem que ser verdadeiro no seu sentimento.

- Para você, o grafite ainda é visto como uma arte marginal? Ainda tens problemas com a polícia, por exemplo?

Acho que o grafite evoluiu muito, não temos problemas com a polícia e já recebi até um convite para pintar o quarto da filha de um policial.

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