Caso Lidiane Leite

Servidores de Bom Jardim temem atraso de salários após sumiço da prefeita

Faixa hasteada em frente à Câmara pede "basta à corrupção", oito dias depois de a prefeita Lidiane Leite abandonar o município, foragida da Polícia Federal
Glberto Léda26/08/2015
Faixa em frente à Câmara de Bom Jardim

A faixa hasteada em mastros na frente da Câmara Municipal de Bom Jardim - pedindo "chega de corrupção" - contrasta com o Aviso de Chamada Pública nº 001/2015, ainda afixado na parede do próprio Legislativo municipal.

O documento, assinado pela prefeita Lidiane Leite (PRB) no dia 28 de janeiro deste ano, nunca foi retirado do lugar. Era uma espécie de edital de licitação que convocava agricultores da cidade para habilitar-se como fornecedores de gêneros alimentícios para a Prefeitura Municipal, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae).

"Os interessados deverão apresentar a documentação para habilitação e Projeto de Venda no período de 3 de fevereiro a 23 de fevereiro de 2015, das 08:00h às 12:00h, na sala da Comissão Permanente de Licitação-CPL", dizia o aviso.

Ainda está lá, logo atrás da faixa pedindo o fim da corrupção, o nascedouro do esquema de desvio de verbas públicas desbaratado na semana passada pela Polícia Federal, por meio da Operação Éden.

Segundo a PF, todos os agricultores convocados por meio desse edital e cadastrados na CPL receberam pagamento como se houvessem fornecido produtos ao Município. Mas, além de nunca terem efetivamente vendido nada à Prefeitura, também não ficaram com o dinheiro.

"Os envolvidos na trama criminosa saíram recolhendo essas pessoas, levando à boca do caixa no Banco do Brasil, faziam com que sacassem o numerário e recolhiam esse dinheiro em proveito próprio", esclareceu Ronildo Lages, chefe da Delegacia de Repressão aos Crimes Patrimoniais, em coletiva à imprensa na semana passada, ao relatar como a quadrilha desviou, só do Pnae, pelo menos R$ 1 milhão.

Salários - Em Bom Jardim, praticamente uma semana depois do desencadeamento da operação policial que culminou com a prisão dos ex-secretários de Assuntos Políticos, Beto Rocha, e de Agricultura, Antônio Cesarino, o assunto em qualquer roda de conversas é o sumiço da prefeita.

Lidiane Leite também teve a prisão decretada pela Justiça Federal, mas até o fechamento desta edição ainda não havia sido localizada pela polícia, nem se apresentado espontaneamente. É considerada foragida.

Por enquanto, o comando da máquina pública está sob a responsabilidade do secretário municipal de Administração e Finanças, Dal Adler de Castro. Ele se negou a receber a equipe de O Estado, que esteve na sede da Prefeitura na tarde de ontem.

Entre servidores públicos municipais, há o temor de que os salários do mês de agosto, que teoricamente devem ser creditados nas contas até o quinto dia útil do mês de setembro, não sejam pagos.

"A nossa preocupação já é com o pagamento do mês que vem", relatou um guarda municipal, que abordou a reportagem para tentar impedir o registro de imagens no Hospital Municipal Adroaldo Alves Matos. Ele preferiu não se identificar.

O agende de endemias Raimundo Linhares revela situação ainda pior entre os servidores da saúde municipal.

Documento que originou fraudes

Segundo ele, a categoria ainda não recebeu o salário de julho - que deveria ter sido pago no início de agosto - e a expectativa é para novo atraso, no próximo mês.

"A situação está triste. Não tem nada. Já está com dois meses atrasado. Fechando dois meses atrasado", explicou Linhares, que usa uma farda fornecida pela Secretaria Municipal de Saúde ainda na gestão passada. "Ainda hoje a farda é da gestão passada", completou, apontando a logomarca da gestão do ex-prefeito Roque Portela, que antecedeu Lidiane Leite no Município.

Mais

Na noite de segunda-feira, o advogado Carlos Sérgio, que assumiu a defesa da prefeita Lidiane Leite, anunciou que já na terça-feira deveria protocolar um pedido de habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ontem, em novo contato com O Estado, ele disse estar "nos últimos instantes para protocolar", e acrescentou que iria pessoalmente a Brasília, já na madrugada de hoje.

Riscos de calote em servidores

pode afetar todo o comércio local

Segundo servidor da Câmara Municipal de Bom Jardim, a cidade está toda parada

Moradores comentam sobre clima na cidade

Funcionário da Câmara Municipal, o vigilante José Luís da Conceição fala com certo constrangimento da situação da prefeita Lidiane Leite. "Nunca eu tinha visto uma confusão dessa aqui. Prefeito aqui nunca tinha andado na 'carreira' do jeito que essa anda aí", disse. Ele trabalha há 25 anos no Legislativo.

O servidor avalia que os atrasos de salários e, mais recentemente, a situação de incerteza administrativa por que passa o Município de Bom Jardim afetam o comércio.

"Está tudo parado. Só a Câmara mesmo que tem sessão. É uma coisa muito horrível. O comércio fechando cedo, não tem dinheiro. Não tenho dinheiro de jeito nenhum", declarou. Na rua ao lado da Câmara, uma das mais movimentadas de Bom Jardim, mais da metade dos estabelecimentos já estava fechada antes das 16h de ontem.

Nunca eu tinha visto uma confusão dessa aqui. Prefeito aqui nunca tinha andado na 'carreira' do jeito que essa anda aí"José Luís da Conceição, vigilante da Prefeitura

Intimidação - O secretário municipal de Administração e Finanças, Dal Adler de Castro, não recebeu a equipe de O Estado, que tentou uma entrevista para tratar da situação. Por meio de um segundo servidor, identificado como Paulo Montel e autointitulado porta-voz do auxiliar, disse que há recursos para pagamento dos salários e que esclarecimentos serão dados em coletiva de imprensa, após uma "decisão jurídica".

"Recurso tem [para pagamento dos salários]. Mas ele [Dal Adler] não vai atender. Me chamou aqui para dizer isso a vocês. A gente está aguardando uma decisão jurídica. Aí, vamos convocar uma coletiva e convidar a todos, todos os veículos que estiveram todos esses dias nos massacrando, e a gente vai esclarecer muita coisa", reportou Montel.

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