SAÚDE DA MULHER

Cólica que tira você da rotina não é normal: saiba reconhecer a endometriose

A endometriose atinge 190 milhões de mulheres. Entenda os sinais de alerta, a importância do diagnóstico precoce e como tratar a dor crônica no Brasil.

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Jessyka Melo/Imirante.com

A endometriose atinge uma a cada dez mulheres no mundo. (Foto: Reprodução/Canva)

SÃO LUÍS - Foram quase dois meses sangrando sem parar. A barriga inchou a ponto de parecer uma nova gravidez, o intestino travou e a dor já não deixava Maria Isis ficar de pé. Depois de procurar uma emergência e receber uma injeção para conter o sangramento, ela ouviu pela primeira vez a suspeita que explicaria anos de sintomas: endometriose. 

Os primeiros sinais apareceram ainda na adolescência. Maria, hoje com 34 anos, tinha menstruações com fluxo intenso, muitos coágulos e cólicas que a deixavam de cama, com sensação de desmaio. “Não considerava normal, porque sentia fortes dores e não sabia mais o que fazer”, lembra. 

Mesmo com consultas ginecológicas regulares, o problema não foi identificado. O diagnóstico só chegou por volta dos 28 anos, três anos depois do nascimento das filhas gêmeas, quando os sintomas se agravaram e ela passou a procurar atendimento repetidas vezes. 

O caminho até a confirmação incluiu uma consulta particular, uma ultrassonografia transvaginal e, depois, uma ressonância magnética. Para Maria, descobrir o que estava acontecendo trouxe alívio. “Fiquei bem, porque, graças a Deus, eu ia tratar de algo que estava me fazendo muito mal”, conta. 

Há seis anos, ela faz tratamento medicamentoso diário e não menstrua por causa da terapia. Os sintomas diminuíram. “Hoje eu consigo respirar aliviada. Parecia que o mundo estava desabando em cima de mim. Eu não vivia mais de tanta dor.” 

Casos como o de Maria são comuns. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a endometriose atinja cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva no mundo, 190 milhões de pessoas. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, o intervalo médio entre o início dos sintomas e a confirmação da doença é de sete anos. 

O que acontece no corpo 

A endometriose é uma doença inflamatória crônica em que um tecido semelhante ao endométrio, que reveste internamente o útero, cresce em outras regiões do corpo. As lesões provocam inflamação e podem levar à formação de aderências, fibrose e alterações na anatomia dos órgãos. 

“Embora seja mais comum nos ovários, peritônio e estruturas pélvicas, a doença também pode acometer intestino, bexiga, ureteres e, mais raramente, regiões fora da pelve”, explica a ginecologista Rafaella Rego.

De acordo com a localização e a profundidade das lesões, a endometriose pode ser superficial, ovariana (quando forma os chamados endometriomas) ou profunda, quando atinge tecidos e órgãos de maneira mais extensa. As causas ainda não são totalmente conhecidas. Entre as hipóteses estudadas estão fatores genéticos, hormonais e imunológicos, além da menstruação retrógrada, quando parte do sangue menstrual reflui pelas tubas em direção ao abdômen. 

A quantidade de lesões não determina necessariamente a intensidade da dor. “Uma mulher pode ter poucas lesões e sentir muita dor, enquanto outra pode apresentar doença extensa e ter poucos sintomas”, afirma a médica. Também é possível ter endometriose sem dor ou outros sintomas. Algumas mulheres só descobrem a doença durante uma investigação de infertilidade ou em exames feitos por outro motivo. 

Sinais de alerta 

A dor menstrual é o sintoma mais conhecido, mas a endometriose também pode provocar: 

  • Dor pélvica crônica, que pode persistir mesmo fora do período menstrual; Dor durante ou depois da relação sexual; 
  • Dor para evacuar ou urinar, principalmente durante a menstruação; Alterações intestinais ou urinárias que se repetem a cada ciclo; 
  • Sangramento menstrual intenso, inchaço abdominal e náuseas; 
  • Dificuldade para engravidar. 

Para a ginecologista, mais importante do que medir a dor em uma escala é observar o que ela provoca na vida da mulher. “Uma cólica que impede atividades habituais, provoca faltas ao trabalho ou à escola, exige uso frequente de analgésicos, piora progressivamente ou vem acompanhada de dor nas relações sexuais, ao evacuar ou ao urinar merece investigação.” 

“Uma pergunta simples ajuda muito: ‘Essa dor interfere na sua vida?’ Se a resposta for sim, ela não deve ser simplesmente normalizada”
Rafaella Rego.

Isso não significa que toda cólica seja sinal de endometriose. Olhando para a própria história, Maria Isis reconhece hoje um sinal que ignorou. “Acho que o alerta que eu tive mesmo na adolescência foi o fluxo de sangue e os coágulos. Aquilo já era um sinal.” 

Por que o diagnóstico pode demorar anos 

No mundo, segundo a OMS, o tempo entre os primeiros sintomas e o diagnóstico varia de quatro a 12 anos. Segundo Rafaella, vários fatores contribuem para a demora. Um deles é cultural, já que durante muito tempo, cólicas fortes foram tratadas como algo que simplesmente fazia parte da menstruação. Por isso, muitas mulheres demoram a procurar atendimento ou não dão importância aos próprios sintomas. 

Quando ela chega ao serviço de saúde, o diagnóstico também pode ser dificultado porque os sintomas se confundem com problemas intestinais, urinários e musculoesqueléticos. Além disso, nem todo exame de imagem é feito com protocolo específico para investigar endometriose. 

“A normalização da dor menstrual não acontece apenas dentro de casa; ela pode alcançar também os serviços de saúde”, diz a médica. Ela faz, porém, uma ressalva. “O objetivo não é patologizar a menstruação e sim reconhecer quando um sintoma deixa de ser um desconforto esperado e começa a limitar a vida de uma mulher.” 

Nesse intervalo, muitas mulheres reorganizam a rotina em função da dor, faltam ao trabalho, abandonam atividades, evitam relações sexuais e gastam com consultas, exames e medicamentos. “Antecipar o diagnóstico não significa simplesmente colocar um nome na doença mais cedo. Significa permitir que essa mulher tenha acesso mais cedo a acompanhamento e tratamento adequados”, afirma Rafaella. 

Como a endometriose é investigada 

A investigação começa antes dos exames. O médico precisa entender quando a dor aparece, sua relação com o ciclo menstrual, a presença de dor durante as relações, sintomas intestinais ou urinários, alterações no fluxo e os planos da paciente em relação à gravidez. 

A partir dessa avaliação, podem ser solicitados exames de imagem. A ultrassonografia transvaginal direcionada para pesquisa de endometriose é uma das ferramentas utilizadas. A ressonância magnética da pelve pode complementar a avaliação, conforme o caso. “A qualidade do exame e a experiência de quem o realiza são muito importantes”, explica a ginecologista. 

A videolaparoscopia é um procedimento cirúrgico que pode ser indicado em situações específicas, inclusive para tratamento. “Hoje, não é necessário operar uma paciente simplesmente para confirmar que ela tem endometriose”, diz Rafaella. 

O Ministério da Saúde também considera possível iniciar o tratamento diante de sintomas característicos, mesmo antes de uma confirmação por exame ou cirurgia. 

Um exame de imagem normal não necessariamente afasta a doença. Lesões superficiais, especialmente as localizadas no peritônio, podem não aparecer. “O exame de imagem é uma ferramenta extremamente importante, mas ele não substitui o raciocínio clínico”, afirma a médica. Por isso, o resultado precisa ser interpretado junto com a história e os sintomas da paciente. 

Ao marcar uma ultrassonografia, pode ser útil perguntar se o serviço faz investigação específica para endometriose e se há preparo intestinal quando indicado.

O tratamento depende de cada mulher 

A endometriose é uma doença crônica e não tem cura conhecida, mas os sintomas podem ser controlados. O tratamento pode envolver medicamentos, cirurgia ou as duas coisas. A escolha depende da intensidade dos sintomas, da localização da doença, dos efeitos dos medicamentos, dos riscos cirúrgicos e dos planos reprodutivos da paciente. 

“Nem todas precisam do mesmo tratamento e essa individualização é fundamental”, explica Rafaella. “Nós não tratamos apenas uma imagem; tratamos uma mulher, seus sintomas e seus objetivos.” 

Entre as possibilidades estão remédios para controlar a dor e tratamentos hormonais, como anticoncepcionais combinados e progestágenos. Parte dessas opções impede a ovulação e não serve para quem está tentando engravidar. 

Maria toma a medicação todos os dias. Se passa dois dias sem tomar, conta, o sangramento e as dores voltam. 

Sobre a cirurgia, a médica é cautelosa. “A cirurgia não deve ser automática simplesmente porque apareceu uma lesão em um exame. Além disso, operar repetidamente também tem consequências”, afirma a ginecologista. O procedimento pode ser considerado quando a dor permanece intensa apesar do tratamento clínico, quando a paciente não pode ou não quer usar determinados medicamentos, em algumas situações relacionadas à infertilidade ou quando há comprometimento da anatomia ou do funcionamento de órgãos. Também pode ser necessário para esclarecer ou tratar determinadas lesões e complicações. 

Como a endometriose é crônica, os sintomas podem voltar mesmo depois de um tratamento bem-sucedido, inclusive após uma cirurgia. Isso não significa necessariamente que o tratamento anterior tenha falhado. O acompanhamento precisa continuar ao longo do tempo. 

Fisioterapia, acompanhamento psicológico, terapia cognitivo-comportamental e grupos de apoio também podem ajudar no controle da dor e na qualidade de vida. 

Endometriose causa infertilidade? 

Não necessariamente. A doença pode dificultar a gravidez por causa de inflamações, aderências e alterações nas tubas e nos ovários, mas isso não acontece com todas as mulheres. 

Maria Isis, por exemplo, teve as filhas gêmeas aos 25 anos, antes de receber o diagnóstico. O caso dela, porém, não vale como regra. 

Para quem quer engravidar, podem ser consideradas estratégias voltadas à fertilidade, como indução da ovulação, inseminação intrauterina, fertilização in vitro e, em alguns casos, cirurgia. 

Os efeitos na rotina

Além da dor, a doença pode interferir na sexualidade, nas relações pessoais e na saúde emocional. Há mulheres que deixam de marcar compromissos porque não sabem como estarão durante o ciclo. 

“Na qualidade de vida, o impacto pode ser ainda mais amplo. Dor crônica, relações sexuais dolorosas, alterações intestinais e urinárias, fadiga e dificuldade para realizar atividades profissionais e sociais podem afetar profundamente a rotina”, explica Rafaella. A OMS também aponta ansiedade, depressão, isolamento social e perda de renda entre as consequências. 

Maria conhece esse lado da doença. Antes de descobrir a causa dos sintomas, deixou de sair de casa e enfrentou uma depressão. “Foram tantas coisas, tanta descoberta. Só um problema fez tanta coisa no corpo”, resume. 

Antes da consulta, vale anotar 

Registrar os sintomas ajuda o médico a entender a evolução do quadro. Antes da consulta, a mulher pode anotar: 

  • Quando a dor começou e em que momento do ciclo aparece; 
  • Se a dor piorou ao longo dos anos e quanto interfere na rotina; 
  • Quais medicamentos utiliza e com que frequência; 
  • Se sente dor durante as relações sexuais, ao evacuar ou urinar; 
  • Como é o fluxo menstrual, incluindo duração, intensidade e presença de coágulos; Se deseja engravidar.

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