Pesquisa da Universidade Ceuma investiga efeitos do cigarro eletrônico no coração, nos pulmões e na saúde bucal
Estudo desenvolvido no Maranhão já avaliou 29 jovens e pretende chegar a 120 participantes até dezembro de 2027. Projeto reúne estudantes de Fisioterapia e mestrandos de Biomedicina e Odontologia para investigar os impactos do uso de vapes na saúde.
SÃO LUÍS - Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Ceuma, no Maranhão, está investigando os possíveis efeitos do uso de cigarros eletrônicos no coração, nos pulmões e na saúde bucal. O estudo, que integra o projeto Vape Zero Maranhão, já avaliou 29 jovens com idades entre 18 e 29 anos e pretende alcançar 120 participantes até dezembro de 2027, quando está prevista sua conclusão.
A investigação é coordenada pela fisioterapeuta e pesquisadora Daniela Bassi Dibai e conta com a participação de estudantes de Fisioterapia e mestrandos dos cursos de Biomedicina e Odontologia da Universidade Ceuma. A iniciativa integra o Plano Maranhão 2050, do Governo do Estado, e busca compreender os impactos do consumo desses dispositivos por meio de uma avaliação integrada de diferentes sistemas do organismo.
Durante a pesquisa, os voluntários passam por uma série de exames que incluem a análise da frequência cardíaca, peso, altura, gordura corporal, rigidez arterial, função pulmonar e força muscular respiratória. Parte dos resultados é apresentada em aplicativos utilizados nas avaliações.
Um dos procedimentos utiliza um aparelho colocado na boca do participante para medir a força dos músculos respiratórios durante a inspiração e a expiração. Os pesquisadores também avaliam indicadores relacionados à circulação sanguínea e ao funcionamento do coração.
Pesquisa envolve estudantes e pesquisadores da Universidade Ceuma
Além da investigação sobre os efeitos dos cigarros eletrônicos, o projeto proporciona aos universitários a oportunidade de participar das diferentes etapas de uma pesquisa científica, desde a realização dos exames até o acompanhamento dos voluntários.
A estudante Dandara Pereira, integrante da equipe, explica que a experiência permite aprofundar os conhecimentos adquiridos durante a formação acadêmica, especialmente na área de fisioterapia respiratória.
“A proposta é que a gente venha conhecer a pesquisa, não só de forma teórica, mas de forma prática, a fisioterapia respiratória”, afirma.
Segundo a universitária, as avaliações seguem um fluxo de procedimentos e utilizam diferentes equipamentos para analisar as condições de saúde dos participantes.
“Durante os exames, a gente segue um fluxograma. Temos vários equipamentos para fazer os exames e verificar como está a saúde dos voluntários. Durante esse processo, eles mesmos observam que não estão bem de saúde. Isso acaba conscientizando que o vape não está sendo saudável para eles”, relata.
A participação de estudantes e mestrandos de diferentes cursos é uma das características do projeto desenvolvido pela Universidade Ceuma, que reúne conhecimentos de Fisioterapia, Biomedicina e Odontologia na investigação dos efeitos dos dispositivos eletrônicos.
Estudo busca identificar alterações cardiovasculares e respiratórias
Entre os principais pontos analisados pela equipe estão os possíveis danos provocados pelos cigarros eletrônicos ao sistema cardiovascular. Evidências científicas apontam associações entre o uso desses dispositivos e alterações como arritmias cardíacas, dores no peito e aumento do risco de doenças coronarianas.
A pesquisa avalia a rigidez arterial, indicador relacionado à elasticidade dos vasos sanguíneos, e a variabilidade da frequência cardíaca, que permite observar como o organismo regula os batimentos do coração.
Também são investigadas alterações relacionadas à disfunção endotelial, ao estresse oxidativo e a processos inflamatórios nos vasos sanguíneos.
No sistema respiratório, a preocupação envolve a exposição ao aerossol produzido pelos aparelhos. Embora não funcionem por meio da combustão do tabaco, os cigarros eletrônicos podem conter nicotina, propilenoglicol, glicerina, aromatizantes, substâncias cancerígenas e metais pesados.
Entre os problemas associados ao consumo está a Lesão Pulmonar Associada ao Uso de Cigarro Eletrônico ou Vaping (EVALI), que pode provocar tosse, inflamação pulmonar e comprometimento da capacidade respiratória.
Na saúde bucal, os possíveis efeitos incluem ressecamento da boca, inflamação gengival, erosão dentária e aumento do biofilme bacteriano, condições que podem favorecer o desenvolvimento de doenças periodontais.
Para Daniela Bassi Dibai, a decisão de investigar esses efeitos surgiu da preocupação com o aumento do uso de cigarros eletrônicos entre pessoas cada vez mais jovens.
“A pesquisa surgiu da inquietação de ver cada vez mais pessoas jovens utilizando esses dispositivos. A gente parte do princípio de que essa avaliação integrada desses três sistemas vai trazer muita informação interessante para que possamos, de forma fundamentada, levar essas informações para adolescentes e jovens que têm utilizado ou se deparado com esses dispositivos cada vez mais cedo”, explica a pesquisadora.
Consumo de cigarros eletrônicos preocupa pesquisadores
Dados do terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III) mostram que 5,6% dos brasileiros com 14 anos ou mais utilizam cigarros eletrônicos. Desse total, 1,9% faz uso combinado desses dispositivos com o cigarro convencional.
O levantamento também aponta que 76,3% dos adolescentes que experimentaram cigarros eletrônicos passaram a consumi-los regularmente. Entre os usuários, cerca de 78% não reduziram o consumo de cigarros convencionais.
Apesar dos riscos conhecidos, o acesso aos aparelhos continua sendo considerado fácil. Segundo a pesquisa, 94,7% dos brasileiros reconhecem os malefícios associados aos dispositivos.
O LENAD III foi realizado em 2023 e divulgado em 2025, com a participação de 16.608 pessoas de 14 anos ou mais, em 349 municípios de todas as regiões do país.
No Brasil, a comercialização, a importação e a publicidade de cigarros eletrônicos são proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009.
Projeto prevê ações de conscientização em escolas e universidades
Além das avaliações clínicas e da produção científica, o Vape Zero Maranhão prevê o desenvolvimento de aplicativos interativos, experiências com realidade virtual e atividades educativas em escolas e universidades.
A proposta é utilizar os conhecimentos obtidos durante a pesquisa para informar adolescentes e jovens sobre os riscos associados ao consumo de cigarros eletrônicos.
A iniciativa integra o Plano Maranhão 2050, estratégia de longo prazo do Governo do Estado que contempla ações nas áreas de saúde, educação, meio ambiente e desenvolvimento econômico e social.
À frente do projeto está Daniela Bassi Dibai, fisioterapeuta com mestrado, doutorado e pós-doutorado em Fisioterapia, com formação vinculada à Universidade Federal de São Carlos e experiência acadêmica na University of Illinois at Chicago.
Com 29 voluntários avaliados até o momento, a equipe da Universidade Ceuma segue com a coleta de dados para alcançar a meta de 120 participantes. A conclusão do estudo está prevista para dezembro de 2027, quando deverão ser reunidas as informações sobre os possíveis impactos do uso de cigarros eletrônicos nos sistemas cardiovascular, respiratório e na saúde bucal.
A pesquisa também integra a formação acadêmica dos estudantes envolvidos, que participam diretamente das avaliações e do acompanhamento dos voluntários, associando o aprendizado em sala de aula à prática científica.
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