Artigo de opinião

A ALDEIA

Leia o artigo de Flávio Assub sobre uma aldeia amazônica que inspira reflexões sobre tempo.

Flavio Assub/ Escritor e advogado

Encontrei um vídeo no Instagram enquanto cumpria a difícil obrigação contemporânea de não fazer nada. Um piloto sobrevoava a imensa Amazônia quando a câmera encontrou uma vila muito isolada, “no meio do nada ou do tudo”, como li nos comentários.

Voltei o vídeo algumas vezes, intrigado. Essa introspecção pode parecer piegas, mas, para mim, não foi. Uma comunidade inteira reduzida a alguns segundos de surpresa.

De plano, associei aquela aldeia ao passado, como se a ausência de prédios, automóveis e aparelhos eletrônicos significasse viver em uma etapa anterior da humanidade. Mas aquelas pessoas eram tão contemporâneas quanto eu. A diferença estava na ideia de que o nosso modelo de vida transformou a tecnologia em medida universal de desenvolvimento.

Em Aceleração, o sociólogo alemão Hartmut Rosa analisa uma contradição: as tecnologias aumentaram a velocidade dos transportes, da comunicação e da produção, mas não nos deram mais tempo. Ao contrário, passaram a exigir que realizássemos um número cada vez maior de tarefas no mesmo intervalo.

Lembrei-me de um vídeo do jornalista Pedro Andrade, publicado em seu perfil nas redes, em que ele diz que o tempo não volta e que talvez seja o recurso mais caro da vida. A frase parece evidente, mas nossa rotina funciona como se fosse falsa. Economizamos dinheiro, acumulamos objetos e planejamos o futuro enquanto entregamos horas inteiras a tarefas que nem sequer sabemos por que aceitamos cumprir.

Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço, chama de “sociedade do desempenho” o ambiente em que cada pessoa cobra de si mesma produtividade constante. Trabalho, descanso, exercício, alimentação e até lazer tornam-se projetos de aperfeiçoamento. Não basta viver. É preciso, a todo custo, demonstrar que o tempo foi bem utilizado.

Não sei como aquela comunidade organiza os seus dias. Seria irresponsável imaginá-la sem trabalho, obrigações, conflitos ou sofrimento. A aldeia certamente não é um paraíso. O vídeo apenas me fez perceber que as metas que governam nossas vidas não são leis naturais. Foram criadas por determinado modelo de sociedade e, apesar disso, nós as tratamos como condições indispensáveis à existência humana.

A imagem também expõe outra maneira de ocupar o território. Em Ideias para adiar o fim do mundo, Ailton Krenak questiona a concepção de uma humanidade separada da natureza e autorizada a transformá-la apenas em recurso. Pego-me pensando que, ali, ocupar o território não significa dominar a floresta, mas organizar a vida dentro dela.

O artigo 231 da Constituição reconhece aos povos indígenas os “direitos originários” sobre as terras que tradicionalmente ocupam. Esses direitos não foram criados pelo Estado. São anteriores a ele. A Constituição não os concedeu; reconheceu que já existiam.

A floresta, a aldeia e seus habitantes não começaram a existir quando suas imagens surgiram nos nossos gadgets. Não é um mundinho na nossa pretensiosa imensidão. Talvez esse tenha sido o verdadeiro impacto da imagem — e a razão pela qual ela não desapareceu quando continuei a passar os vídeos. Ali, a floresta não é apenas paisagem lírica. É um território em que a vida acontece.

O algoritmo já havia preparado outra surpresa, e aquela aldeia logo deixou a tela. A sequência de imagens continuou, indiferente, mas aldeia permaneceu lá. Não isolada do mundo, apenas fora do meu alcance.

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