Economia prateada

Depois dos 60, empreendedoras no Maranhão mantêm carreira ativa em busca de autonomia e novos projetos

Dados apontam crescimento do empreendedorismo entre pessoas mais velhas; para especialistas, manter atividades profissionais, intelectuais e sociais pode contribuir para um envelhecimento mais saudável.

Anne Cascaes / Imirante.com

Mais do que uma fonte de renda, o trabalho pode representar, para essa parcela da população, uma maneira de continuar fazendo escolhas. (Foto: arquivo pessoal)

SÃO LUÍS - Envelhecer não significa necessariamente parar. Para um número cada vez maior de brasileiros, a chegada aos 60 anos representa uma nova etapa profissional, marcada pela continuidade de negócios, criação de projetos e busca por atividades que mantenham a autonomia e a participação na sociedade.

A mudança aparece também nos números. Segundo a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2025, realizada em parceria com o Sebrae, o Brasil já reúne cerca de 4,5 milhões de empreendedores com mais de 60 anos, um crescimento de quase 60% na última década.

Entre os empreendedores de 65 a 74 anos, quase 63% afirmam ter iniciado seus negócios motivados por oportunidades, enquanto pouco mais de 32% empreenderam por necessidade.

No Maranhão, dados da Receita Federal e do IBGE, levantados pela Unidade de Inteligência de Dados do Sebrae, apontam que existem atualmente 40.774 sócios de empresas formais e ativas entre 60 e 68 anos. Desse total, 88% estão à frente de pequenos negócios. Os homens representam 61,8% e as mulheres, 38,2%.

Mais do que uma fonte de renda, o trabalho pode representar, para essa parcela da população, uma maneira de continuar fazendo escolhas, convivendo com outras pessoas e colocando conhecimentos acumulados ao longo da vida em prática.

Trabalho como forma de manter a autonomia

O médico neurocirurgião Luís Fernando Silva Jr. explica que a discussão sobre envelhecimento saudável precisa ir além da ideia de simplesmente aumentar a expectativa de vida. Segundo ele, o objetivo é ampliar os anos vividos com autonomia, preservando a capacidade de caminhar, trabalhar, aprender, tomar decisões, manter relacionamentos e realizar atividades que deem sentido à vida.

“Quando a gente fala de envelhecer bem, a gente não está falando simplesmente em viver mais anos. O que a gente quer é viver mais anos preservando autonomia”, explica.

O especialista destaca que uma parcela importante dos fatores relacionados ao declínio cognitivo pode ser modificada ao longo da vida. Entre os principais cuidados estão a prática regular de atividade física, o controle de hipertensão, diabetes, colesterol e obesidade, a manutenção de um sono de qualidade, a estimulação cognitiva e a vida social ativa.

A correção de problemas de visão e audição também merece atenção. Para o médico, perdas sensoriais não tratadas podem contribuir para o isolamento e estão associadas ao risco de declínio cognitivo.

O especialista destaca fatores importantes sobre o envelhecimento da população. (Foto: arquivo pessoal)

“Eu gosto muito da ideia de que o cérebro que envelhece bem é um cérebro que continua sendo usado, mas dentro do contexto de um corpo que também está sendo cuidado”, afirma.

Continuar trabalhando pode estimular o cérebro

A atividade profissional também pode fazer parte desse processo. Luís Fernando explica que o trabalho, principalmente quando envolve raciocínio, aprendizado, interação e tomada de decisões, contribui para a chamada reserva cognitiva.

Esse conceito está relacionado à capacidade do cérebro de lidar melhor com alterações decorrentes do envelhecimento. A ideia é que experiências acumuladas ao longo da vida como estudar, trabalhar, aprender, resolver problemas e conviver socialmente contribuam para essa reserva.

Isso, porém, não significa que a pessoa precise continuar trabalhando formalmente por toda a vida.

“Não é o emprego em si que protege o cérebro”, ressalta o médico. Uma pessoa aposentada também pode manter a atividade cognitiva por meio de estudos, idiomas, instrumentos musicais, projetos sociais, voluntariado, negócios, hobbies e convivência com amigos e familiares. Para ele, o mais importante é preservar desafios, propósito e participação social.

Aos 67, Cida continua à frente da empresa

É o que acontece com a psicóloga, educadora e empresária Aparecida Bessa, de 67 anos. Depois de mais de três décadas trabalhando na área de Gestão de Pessoas, ela continua à frente da Serhum Consultoria em Recursos Humanos, empresa que fundou há 31 anos.

Empresária Aparecida Bessa, de 67 anos compartilha um pouco da sua trajetória. (Foto: arquivo pessoal)

Sua rotina inclui reuniões, acompanhamento de projetos, participação em eventos e feiras. Fora do trabalho, ela mantém atividades físicas e momentos de lazer, como academia, Pilates e caminhadas na praia.

A história como empreendedora começou em 1995, quando deixou o emprego em uma multinacional para abrir o próprio negócio. Na época, buscou capacitação em gestão e planejamento estratégico e posteriormente fez MBA em Gestão de Negócios.

Hoje, a empresa emprega aproximadamente 40 profissionais. “Empreender é assumir essa responsabilidade: cuidar do negócio, mas, principalmente, cuidar das pessoas que ajudam a construir essa história conosco”, afirma Cida.

Para ela, permanecer profissionalmente ativa está diretamente relacionado ao propósito. “Gosto de aprender, de me conectar com pessoas, de compartilhar experiências e, ao mesmo tempo, de continuar enfrentando novos desafios e me reinventando diante das transformações do mercado de trabalho”, relata.

A empresária também destaca a convivência com diferentes gerações como parte importante de sua rotina. Segundo ela, o contato com profissionais mais jovens permite acompanhar novas tendências, trocar conhecimentos e ampliar sua visão.

Recentemente, a empresa lançou um novo serviço de Educação Corporativa, voltado para treinamentos empresariais.

Para Cida, chegar aos 60 anos não representa o encerramento da trajetória profissional. “Envelhecer é, sem dúvida, mais uma etapa da vida, porém não significa um ponto final”, afirma.

Do ensino ao empreendedorismo rural

A aposentadoria também abriu um novo capítulo na vida da empreendedora Vilma Bela Cavalcante Ferreira.

Depois de uma longa trajetória como professora, ela passou a dedicar-se ao Sítio Doce Cajueiro, em Raposa, na Região Metropolitana de São Luís. O espaço pertence à família há mais de 40 anos e reúne produção de doces e licores caseiros, além de receber visitantes interessados na história da família, na gastronomia e na cultura local.

Vilma compartilha sua relação com o trabalho. (Foto: arquivo pessoal)

Para Vilma, o trabalho no sítio não representa apenas uma atividade econômica. “Continuar trabalhando depois dos 60 anos não é apenas uma questão financeira, é uma escolha de vida”, afirma.

A produção dos doces surgiu, inicialmente, como uma forma de evitar o desperdício do caju produzido no sítio. Como o fruto é perecível, a família começou a transformá-lo em doces, que passaram a ser comercializados em feiras. Posteriormente, a partir de orientações recebidas de consultores do Sebrae, surgiu a ideia de transformar também o sítio em espaço de visitação.

A atividade acabou reunindo produção, turismo, memória familiar e valorização da cultura local. Vilma também investe em capacitação nas áreas de gastronomia, gestão e empreendedorismo. Os produtos já foram apresentados em eventos e feiras em cidades como São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro.

Para ela, continuar ativa também significa preservar um legado familiar. Os doces têm relação com lembranças da infância e com uma tradição gastronômica transmitida pela avó e pela mãe. Ao receber visitantes no sítio, Vilma compartilha essas histórias e, ao mesmo tempo, escuta as experiências de quem passa pelo local.

“Envelhecer é seguir em frente com experiência, entusiasmo e vontade de continuar fazendo acontecer”, resume.

Saúde financeira e saúde caminham juntas

A relação entre trabalho e envelhecimento, no entanto, não deve ser entendida apenas pelo aspecto financeiro. Luís Fernando destaca que segurança financeira pode ampliar as possibilidades de escolha e contribuir para a qualidade de vida. Ao mesmo tempo, manter a saúde física e mental ajuda a preservar a capacidade de trabalhar, empreender, realizar atividades sociais e tomar decisões.

Por isso, segundo o especialista, envelhecer de forma saudável envolve cuidar tanto do corpo quanto do cérebro e manter-se inserido na vida social. A atividade profissional é apenas uma das possibilidades. O princípio, explica o médico, é evitar o afastamento completo das atividades que estimulam a pessoa física, intelectual e socialmente.

“Uma pessoa aposentada pode ter uma vida extremamente ativa do ponto de vista cognitivo”, afirma. Ele ressalta ainda que problemas físicos que comprometem a mobilidade também precisam ser tratados, já que limitações funcionais podem reduzir a participação social e a autonomia.

Uma nova visão sobre a velhice

O crescimento do número de empreendedores mais velhos acompanha uma transformação demográfica do país e também ajuda a questionar a ideia de que a idade, por si só, determina quando alguém deve deixar de produzir.

Para Cida, a maturidade trouxe justamente mais segurança para fazer escolhas e enfrentar novos desafios. “Não quero que os meus 60+ sejam definidos apenas pelos anos que já vivi, mas, sobretudo, por aquilo que ainda quero realizar”, afirma.

No caso de Vilma, a continuidade do trabalho está ligada à preservação da história familiar e à possibilidade de permanecer em contato com pessoas e com a comunidade.

E, para a medicina, manter-se ativo seja trabalhando, estudando, praticando atividades físicas, convivendo socialmente ou desenvolvendo novos projetos, pode ser uma das estratégias para preservar a autonomia ao longo do envelhecimento.

A questão, portanto, não é simplesmente até quando trabalhar, mas como continuar participando da própria vida à medida que os anos passam.

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