Letalidade policial

Mais da metade dos registros de mortes por policiais no Maranhão não informa a raça ou cor das vítimas, diz estudo

Segundo o estudo "Pele Alvos", a ausência dos dados dificulta a identificação do impacto racial da violência provocada por policiais.

Imirante.com

Atualizada em 01/07/2026 às 12h13
Estudo aponta subnotificação racial em mortes por policiais no Maranhão. ((Divulgação))

SÃO LUÍS - Mais da metade dos registros de mortes por policiais no Maranhão não informa a raça ou a cor das vítimas, segundo o estudo Pele Alvo, divulgado nesta quarta-feira (1º) pela Rede de Observatórios da Segurança. De acordo com o levantamento, 54,9% das ocorrências no Estado não trazem esse dado, o que dificulta a identificação do impacto racial da violência provocada por agentes do Estado.

O estudo sobre letalidade policial foi elaborado com base em dados das secretarias estaduais de segurança pública obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). Segundo a Rede de Observatórios da Segurança, as informações passam por validação para identificar eventuais inconsistências. A pesquisa adota o critério do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que considera a população negra como a soma de pessoas pretas e pardas.

Mortes de pessoas negras são maioria

Nos últimos sete anos, o Maranhão registrou 628 mortes de pessoas negras provocadas por policiais, o equivalente a 92,2% das vítimas com raça identificada, segundo o estudo. O percentual supera a participação da população negra no estado, que representa 79% dos habitantes.

Ainda de acordo com o levantamento, a Polícia Militar foi responsável por 83,1% dos óbitos registrados no Maranhão no período analisado. O Imirante solicitou o posicionamento da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP) que informou que a secretaria mantém ações permanentes voltadas ao aperfeiçoamento da atuação policial, à preservação da vida e à redução da letalidade decorrente de intervenção policial. 

Leia a nota da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP) na íntegra: 

"A Secretaria de Estado da Segurança Pública do Maranhão (SSP-MA) informa que mantém ações permanentes voltadas ao aperfeiçoamento da atuação policial, à preservação da vida e à redução da letalidade decorrente de intervenção policial.

Como parte dessas iniciativas, a SSP-MA aderiu ao programa nacional do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) voltado à implementação da Política Nacional de Uso Progressivo da Força. O programa contempla a capacitação continuada dos profissionais de segurança pública, o aprimoramento dos protocolos operacionais e a distribuição de instrumentos de menor potencial ofensivo, como armas de condução elétrica, espargidores de agente químico e outros equipamentos destinados a ampliar a segurança da população e dos próprios agentes.

A adesão ao programa reafirma o compromisso do Governo do Maranhão com a adoção de boas práticas, a modernização da atuação policial e o emprego técnico, proporcional e legal da força.

Em relação às informações sobre raça/cor das vítimas, a SSP esclarece que esse campo não possui preenchimento obrigatório e depende da autodeclaração da própria pessoa ou das informações disponíveis no momento do registro, não sendo permitida a atribuição dessa informação por presunção. Em 2025, 54% dos registros de mortes decorrentes de intervenção policial permaneceram classificados como “não informados”. Dessa forma, o percentual de 92,2% apresentado pelo estudo não foi calculado sobre o total de vítimas registradas no estado (142 casos), mas apenas sobre a parcela dos registros em que havia informação de raça/cor.

A SSP informa, ainda, que todos os casos de mortes decorrentes de intervenção policial são registrados, investigados pela Polícia Civil e acompanhados pelos órgãos de controle competentes, reafirmando seu compromisso com a transparência, o aperfeiçoamento contínuo das políticas de segurança pública e a preservação da vida.

Políticas

As secretarias Extraordinária da Juventude (Seejuv) e da Igualdade Racial (Seir) desenvolvem um conjunto de ações estratégicas voltadas à prevenção da violência, à promoção de oportunidades e ao fortalecimento da cidadania juvenil, como o Conselho Estadual de Juventude (Cejovem); e o Guia de Políticas Públicas para Juventude; os Planos Juventude Viva e Juventude Prevenida.

O Estado também aderiu ao Plano Juventude Negra Viva, por meio de acordo celebrado com o Governo Federal. O Plano tem como foco o enfrentamento da violência letal e das vulnerabilidades sociais que afetam de forma desproporcional adolescentes e jovens negros no Brasil."

2025 teve maior número da série histórica

O estudo também aponta que o Maranhão registrou, em 2025, o maior número de mortes provocadas por intervenções policiais de toda a série histórica analisada. Foram 142 casos no ano passado, contra 76 em 2024, o que representa aumento de 86,8%.

Segundo a Rede de Observatórios da Segurança, esse crescimento está associado à interiorização de facções criminosas originárias do Sudeste, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). De acordo com a pesquisa, esses grupos passaram a disputar e controlar rotas de escoamento em parceria com facções locais.

Número de vítimas de mortes decorrentes de intervenção policial por idade no Maranhão

0 a 11 anosNenhuma morte
12 a 17 anos16 mortes
18 a 29 anos80 mortes
30 a 39 anos28 mortes
40 a 49 anos8 mortes
50 a 59 anos2 mortes
60 anos ou mais1 morte
Não informado7 mortes

Fonte: Rede de Observatórios da Segurança

Jovens concentram maior parte das vítimas

O perfil das vítimas mostra que a letalidade policial atinge principalmente os mais jovens. Segundo o levantamento, 67,6% dos mortos tinham até 29 anos. Na faixa etária, foram registradas 16 mortes de adolescentes de 12 a 17 anos e 80 de jovens de 18 a 29 anos. Entre pessoas de 30 a 39 anos, houve 28 casos.

A pesquisa também mostra concentração territorial dessas ocorrências. Segundo o estudo, 50,7% das mortes registradas no estado aconteceram em apenas 11 municípios. Embora o Maranhão tenha 217 cidades, cerca de 40% dos casos foram contabilizados em somente 35 municípios, muitos deles com menos de 15 mil habitantes.

Número de vítimas de mortes decorrentes de intervenção policial por raça no Maranhão

AmarelaNenhuma morte
Branca5 mortes
IndígenaNenhuma morte
Não informado78 mortes
Negra59 mortes
Parda47 mortes
Preta12 mortes

Fonte: Rede de Observatórios da Segurança

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