Mundanidade sonora feita com excelência

Banda Berberes mistura diversos elementos da música com proposta totalmente autoral

O grupo tem como integrantes a maranhense Luiza Fernandes e os paulistanos Juliano Gentille e Mica Farina. Em entrevista ao Plugado, na Mirante FM, falam dos desafios e do processo de criação autoral da Berberes.
Pedro Sobrinho/Jornalista 07/07/2020 às 11h51

A música é uma fonte inesgotável e tem para todos os gostos. E o Brasil é a pátria com uma musicalidade mais diversificada do planeta. E a cada dia a gente se surpreende com artistas desafiando o "mainstream" e mostrando que além de ciência, diversão, você tem que fazer música com a linguagem com a qual você acredita. Eu me refiro aqui a Berberes.

Banda Berberes entrevistada no Plugado, na Mirante FM. Foto: Divulgação

Em entrevista no último domingo (5/7), no Plugado, na Mirante FM, ao jornalista Pedro Sobrinho, a maranhense Luiza Fernandes, uma das integrantes da banda, juntamente com os paulistanos Juliano Gentille e Mica Farina, definiu a Berberes como um encontro de músicos que vivem em São Paulo. Luiza é mais uma maranhense que deixa o seu Porto Seguro em busca de novas possibilidades tendo como escolha a Paulicéia Desvairada.

- A minha relação com São Paulo é de longa data. Morei quando criança dois anos. Depois retornei a São Paulo para fazer a graduação em Comunicação na USP. Mudei em 2012 e durante este tempo em São Paulo minha trajetória foi sempre ligada a música, tanto na comunicação, assim na música como guitarrista. É uma cidade que aprendi muito, devo muita coisa, que eu conheci muita gente. São Paulo me fez amadurecer muito e também criar muitas redes de amigos, de pessoas. Em 2016 eu conheci o grupo Cupuaçu de Danças Populares, um grupo que tem fundação dos mestres Tião Carvalho e Graças Reis, entre outras pessoas. Grupo trabalha com diversas tradições populares maranhenses, como, o bumba meu boi, tambor de crioula. Pra mim foi uma grande escola. No grupo tive contatos com outras pessoas que aprendi muito. Muitos conhecimentos que eu tinha por ser maranhense, acabei aprofundando em São Paulo, com esta comunidade maranhense que propaga, mantém, constrói a nossa tradição em outros lugares do Brasil. Esta vivência entra de diversas maneiras na minha atuação na banda Berberes. Eu procuro levar na minha maneira de ser, de tocar, pensar a música, diversos elementos das tradições populares maranhenses aliados a outros elementos, outros interesses de música que eu gosto bastante - esclarece.

Cruzamentos rítmicos feitos com personalidade própria

Berberes é um encontro de sonoridades em músicas autorais, segundo Luiza, começou a ensaiar no Parque da Água Branca, na Barra Funda, em São Paulo. A banda busca explorar as possibilidades de cruzamentos entre ritmos percussivos e temas protagonizados pelas cordas dedilhadas.

O EP Justin Berberes foi gravado no Estúdio 185 entre maio e agosto de 2019. Felipe Crocco (Chimpanzé Clube Trio) assina a produção musical do disco junto com a banda.

- A banda nasceu de uma forma despretensiosa. Eu conheci o Juliano em um curso que fizemos juntos na EMESP - Escola de Música do Estado de São Paulo, chamado Guitarra Contemporânea. A ideia do curso era usar as guitarras de uma maneira que não fosse convencional. Eram mais de cinco guitarras tocando juntos neste curso. Até hoje isso permeia a ideia musical da banda. A partir daí, a gente começou a se reunir, mas pra frente conhecemos o Felipe Crocco, que hoje é o produtor musical do disco, junto com a gente. Através do Felipe nós conhecemos o Mica Farina, o nosso violeiro, guitarreiro, músico, que trouxe uma bagagem riquíssima, que acrescentou muito na música. Começamos a nos reunir, ensaiar no Parque da Água Brança, na Barra Funda, em São Paulo, começamos a tocar, começaram a surgir convites para a gente se apresentar e fomos formalizando a banda. Ao longo do processo a gente percebeu que seria muito legal incrementar a sonoridade das cordas com outros elementos, especialmente, percussivos. Por isso, a gente convidou dois amigos, o Daniel Porto Rico e a Juba Carvalho, pra se apresentar em algumas ocasiões. O resultado deu tão certo que virou formato de nosso EP. São as cordas dedilhadas cortadas por percussões - explica.

Com uma abordagem minimalista e contrapontística, que abarca também percussão e vocais, a banda lança seu primeiro disco, o EP Justin Berberes, contemplado no edital de Fomento à Música da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

- Em 2018 fomos contemplados com o Edital da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, que proporcionou a gente gravar com a máxima qualidade possível. E destaco que projetos, editais como esses de criação musical, principalmente, para músicos independentes, que se repliquem pelo País. Enfim, são iniciativas legais - destaca

Berberes é uma referência aos povos nômades que vivem especialmente no deserto do Saara, como também são nômades e de diversas localidades as referências do trio. Com instrumentos em punho, a banda atravessa sons do norte e oeste africano até o pós-rock paulista, com longas paradas no norte e nordeste brasileiros.

Diversas linguagens concebidas com consenso de grupo

Segundo Juliano Gentillie, as influências da banda, incluem, os malianos Ali Farka Touré e Toumani Diabaté, o americano Marc Ribot Y los Cubanos Postizos, além dos brasileiros Mutantes, Helena Meirelles, Metá Metá, Kiko Dinucci, Hurtmold, Tortoise e Siba. “Guitarrada pós-rockuda semi-marroquina” é como o trio tenta definir suas referências sonoras nas composições. A formação instrumental conta com violão, viola e guitarra, mas o grupo costuma se apresentar acompanhado de diferentes músicos, especialmente percussionistas.

- Desde que a gente criou a banda foi um consenso, o desejo de fazer a própria música, ou seja, fazer música autoral. Com isso, a gente foi percebendo que cada um trazia referências diferentes. Só que mesmo com essas diferenças a gente foi vendo coisas em comum, então a gente procura criar a partir dessas conversas entre as nossas referências que cada um traz. Mais do que isso a gente gosta que tenha essas diferenças, pois em momento algum a banda foi criada para ser identificada com determinado gênero, determinado estilo. Quando isso acontece você pode ganhar um público por causa desse gênero, mas ao mesmo tempo você fica refém. A gente procura sair disso, o tanto quanto possível, porque isso é sempre um processo. Um dos resultados mais interessantes que a gente tem sentido, agora que o nosso disco está internet é perceber a reação das pessoas. Então, tem gente que associou com Helena Meirelles, outros com ritmos nordestinos. Teve gente que associou determinadas músicas com músicos do Mali, do Marrocos. Teve gente que lembrou da banda Tortoise, de Chicago. Isso é uma coisa interessante pra gente, perceber com essa música é recebida por cada um. É claro que é difícil manter um trabalho desse, como é difícil manter um trabalho autoral de modo geral. Você tem muita gente boa produzindo, muita música boa na internet. Mas, ao mesmo tempo a gente continua com o problema de difusão, como fazer a sua música chegar nas pessoas. É difícil, mas a gente tem gostado de fazer, gostado de trabalhar em cima dessas músicas - assegura.

Berberes não deixa a peteca cair com a Pandemia

Com o single Ocidente, uma das músicas do EP, o grupo foi selecionado duas vezes para a playlist Brasil Instrumental, com curadoria do Spotify. Como parte dos shows de pré-lançamento do disco, a banda se apresentou no evento SOM na SIM, organizado pelo coletivo Mídia Ninja, integrando a programação da Semana Internacional de Música.

Circulou também por espaços como Centro Cultural São Paulo (CCSP), Galeria Olido, Casas de Cultura do Butantã e da Brasilândia, Centro Cultural da Juventude, Tendal da Lapa, e Sensorial Discos, entre outros.

O grupo também foi um dos escolhidos para participar do programa Independente Sim, da rádio do CCSP. Em 2018 o trio participou da 6ª edição do projeto Zapoeta (Estúdio Fitacrepe), acompanhando o poeta Fabrício Corsaletti. No mesmo ano lançaram o vídeo “Ensaio Superlua”, que foi selecionado no 42º Festival Guarnicê de Cinema, em São Luís, Maranhão. Em plena pandemia, a banda Berberes tem se mobilizado. Segundo Mica Farina, o grupo tem se articulado na medida possível para não deixar a peteca cair.

- Como começou a história da Pandemia, essa coisa toda, acendeu uma luz vermelha pra todo mundo que trabalha com produção cultural. A gente tinha acabado de finalizar a masterização do nosso EP, estavámos pensando no lançamento como seria. A gente se reogarnizou o lançamento imaginando que a coisa fosse prolongar, a gente que tivesse um bom tempo de quarentena, dentro de casa. Estamos trabalhando paralelamente ao lançamento do EP que a gente pensou lançar em singles, criou um conograma pra gente fazer o lançamento, consegui movimentar as redes. Paralelo a isso, a gente vai fazendo como outros artistas, tentando gravar temas, a se falar por videconferência, têm feito algumas experiências de gravações, mixagens, misturas de temas e ritmos, e tal. A gente tem se articulado, tem saido algumas coisas interessantes, forçou a gente fazer um outro tipo de processo criativo. Está sendo legal, lógico, dentro do possível. Espero que vocês gostem dos nossos singles que já estão disponíveis nas plataformas digitais e o que a gente está preparando para os próximos meses nesse modo de produção quarenteneiro - justifica Mica Farina.

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