Antes de chegar aos arraiais, vozes do bumba meu boi atravessam o mar. Ainda é madrugada quando cinco homens embarcam rumo ao povoado de Itapera, em Icatu. Não carregam apenas maracás ou toadas. Levam histórias aprendidas com os mais velhos, promessas, lembranças, ofícios, espiritualidade e uma forma de compreender o mundo que resiste há gerações.
É dessa travessia que nasce Toadas em Riba do Mar, novo documentário poético-etnográfico da produtora maranhense Versobaiô, viabilizado pelo Edital nº 08/2024 – UGCADC/SECMA – Mais Produção Audiovisual (Lei Paulo Gustavo). A obra será apresentada pela primeira vez ao público em São Luís e no povoado de Itapera, em Icatu, cenário onde parte da narrativa foi construída.
Em entrevista ao jornalista Pedro Sobrinho, no quadro Troca de Ideia, no Plugado, na Mirante FM Lauande Aires, diretor do documentário e cofundador da Versobaiô, o filme nasce do desejo de revelar aquilo que normalmente permanece fora do olhar do público.
"Quando pensamos esse documentário, entendemos que a história não estava apenas na cantoria, mas em todo o caminho que leva até ela. Existe um universo de encontros, memórias, trabalho, espiritualidade e afeto que antecede a festa e que raramente é visto. Ao acompanhar essa travessia, fomos percebendo que o próprio bumba meu boi nos ensinava como o filme queria ser contado. A narrativa foi surgindo desse encontro entre o cinema e os modos populares de contar histórias.", afirmou Lauande Aires.
Pré-estreia
A pré-estreia em São Luís será realizada para convidados nesta sexta-feira, dia 7 de agosto, no Cine Sesc, que fica na Praça Deodoro (Av. Silva Maia, nº 164, no Centro ), às 19h. Já no povoado Itapera, localizado no município de Icatu, a apresentação será realizada no dia 15 de agosto, em frente à Sede do Boi de Itapera, às 19h, aberto ao público.
Dirigido por Igor Nascimento e Lauande Aires, o filme acompanha cinco amos do bumba meu boi maranhense durante a travessia da Baía de São José para participar de uma cantoria realizada no período dos ensaios da temporada junina de 2025. Durante a travessia, o espectador conhecerá Francisco Correia (Chagas), do Boi de Ribamar; Antônio Egídio, do Boi de Panaquatira; José Antônio Canário, do Boi Tesouro da Ilha; Ronaldo Dantas (Ronaldinho), do Boi Tremor da Campina; e José Martins Galvão, do Boi de Juçatuba. Mestres que carregam décadas de dedicação ao bumba meu boi e cujas trajetórias revelam a profunda relação entre o mar, a cultura popular e a transmissão dos saberes ancestrais.
Mas o percurso registrado pela câmera é apenas o ponto de partida.
Ao longo da viagem, o documentário revela as histórias de homens que fizeram do canto um modo de preservar a memória coletiva, conduzindo o espectador por paisagens onde o mar, os manguezais, os povoados e as comunidades tradicionais compõem uma narrativa sobre pertencimento, ancestralidade e permanência.
Mais do que registrar uma manifestação cultural, Toadas em Riba do Mar permite que a própria cultura popular conduza sua linguagem. A estrutura narrativa do filme é inspirada no auto do bumba meu boi, do guarnicê à despedida, fazendo com que a brincadeira não seja apenas tema, mas também método de criação. Assim, o percurso da câmera acompanha o tempo da festa, os rituais, os encontros e os silêncios, construindo uma experiência cinematográfica em que forma e conteúdo caminham juntos.
A fotografia registra a luz que nasce sobre a baía, os gestos cotidianos dos mestres, a textura das embarcações, o vento que conduz o barco e os instantes de pausa entre uma toada e outra. A narrativa se constrói menos pela explicação e mais pela contemplação, convidando o público a experimentar um tempo marcado pelas marés, pela oralidade e pelos vínculos que unem esses homens ao território onde vivem.
Pesquisa
Toadas em Riba do Mar dá continuidade à pesquisa desenvolvida pelo coletivo sobre as relações entre cinema, dramaturgia e cultura popular maranhense. Depois de obras como O Miolo da Estória e Bomba: no miolo da história, a produtora aprofunda seu diálogo com mestres, brincantes e comunidades tradicionais, transformando experiências vividas em narrativas cinematográficas.
Mais do que acompanhar uma viagem entre São José de Ribamar e Icatu, o documentário convida o espectador a atravessar um Maranhão que raramente ocupa o centro da cena. Um lugar onde o mar conduz lembranças, o canto preserva a memória e o bumba meu boi continua ensinando novas formas de narrar o mundo.
Serviço
O quê: Pré-estreia do documentário Toadas em Riba do Mar
Quando: São Luís - 7/8, às 19h, no Cine Sesc - Praça Deodoro (Av. Silva Maia, nº 164, no Centro ) - Para convidados
Povoado Itapera (Icatu) - 15/8, às 19h, em frente a Sede do Boi de Itapera - Aberto ao público
Mais informações: @versobaio
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