Curtas e Grossas

Lembrando Gal Costa

“Estava ligado na rádio web quando ouvi esta música e lembrei. As recordações vieram...”

José Ewerton Neto

 

Gal é o nome artístico de Maria da Graça Costa, cantora baiana morta aos 77 anos de idade, 3 anos atrás. Estava ligado na rádio web AML quando ouvi esta música e lembrei. As recordações vieram...

A canção, assim intitulada, sem que seja um primor de composição, sempre me tocou de um jeito muito peculiar. O impacto foi o da fala do nome curto e acariciante, tendo ao fundo o sotaque baiano com uma voz afinadíssima afirmando que ali estava a moça Maria da Graça querendo dizer alguma coisa de si mesma através do nome (e da canção, e do seu talento...).

Por que razão então, quando soube de sua morte a primeira coisa que lembrei foi dessa música?

Não sei, não consigo explicar, já que nunca fui um fã ardoroso dessa composição de Roberto e Erasmo Carlos. Lembro   que as canções em que Gal é mais Gal e que melhor a representaram, para mim, foram   Baby de Caetano Veloso e Folhetim, de Chico Buarque. Nenhum outro intérprete entraria na pele o no osso dessas duas melodias como Gal. Quando em Folhetim ela diz sou dessas mulheres que só dizem sim, no verso de Chico Buarque, está claro que Gal é a única mulher que diz sim, assim e, por isso mesmo, se inseriu na melodia e na letra mais até do que seu autor.

A cantora Gal Costa tinha certamente esse dom: o de extravasar   certos significados. Nem sempre o seu tom agudo se adaptava a todas as melodias que interpretava, como podiam fazê-lo melhor outras intérpretes de sua época: Clara Nunes, Elis Regina e Maysa, que talvez tivessem mais domínio vocal e emocional daquilo que pretendiam buscar: Clara Nunes, no samba, Maysa, no samba-canção e Elis Regina na MPB pós-João Gilberto...

Mas Gal era uma intérprete cuja especificidade estava em fazer pulsar através da música, aquela mulher meio tímida, sem grandes arroubos, uma moça de beleza comum, que não teve filhos nem grandes romances, reservada, cujo afeto para consigo extravasa na letra título desta crônica, e que ainda hoje soa como se   a moça de então já estivesse se apresentando na fila da eternidade apresentando seu currículo e dizendo: “Meu nome é Gal.  Guarde esse nome.”

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