política + entretenimento

Roblox, funk e memes: como os jovens estão reinventando a participação política

Jogos on-line, paródias de funk e fandoms de artistas como Anitta e BTS mostram como a política ganha novos formatos nas eleições entre os jovens.

Na Mira, com informações do g1 pop

(Foto: Montagem/Reprodução/Redes Sociais)

BRASIL - A política não está apenas nos debates entre candidatos, nos comícios ou nas propagandas eleitorais. Para parte da geração Z, ela também aparece nas partidas de jogos on-line, nos vídeos que viralizam, nas músicas adaptadas para campanhas e até nos grupos de fãs de artistas. Em meio às eleições de 2026, essas manifestações mostram como os jovens têm incorporado referências de sua própria cultura à participação política, tanto nas redes sociais quanto nas ruas.

Apoiadores dos candidatos à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) recorreram a diferentes estratégias para mobilizar eleitores jovens. Entre os exemplos estão carreatas virtuais no Roblox, manifestações em universidades, paródias de funk, blocos de rua e ações organizadas por fandoms, comunidades de fãs de artistas.

O fenômeno chama atenção pela mistura entre política e entretenimento. Em vez de depender apenas dos formatos tradicionais de campanha, essas mobilizações utilizam linguagens e ambientes que já fazem parte da rotina de muitos jovens para levar mensagens políticas a novos espaços.

Da internet às ruas: a política ganha novas linguagens

Um dos exemplos observados foram as carreatas organizadas dentro do Roblox, plataforma de jogos on-line que permite aos usuários criar e explorar ambientes virtuais. Nas manifestações, os participantes utilizam avatares, veículos, buzinaços e placas para demonstrar apoio a candidatos ou criticar adversários. Há mobilizações tanto de apoiadores de Lula quanto de Flávio Bolsonaro.

O ambiente virtual funciona como uma reprodução de atos políticos do mundo real, mas com elementos próprios da cultura dos jogos. A manifestação deixa de depender de um espaço físico e passa a acontecer em uma cidade digital, com a participação de usuários conectados.

Fora dos jogos, a música também se tornou uma ferramenta de mobilização. Segundo g1, apoiadores de Flávio recorreram a paródias de funk com mensagens eleitorais, enquanto atos chamados de “Bloquinho do 22” levaram às ruas elementos associados ao Carnaval, como trios elétricos, danças e músicas.

Entre os apoiadores de Lula, uma das estratégias foi a mobilização de fandoms de artistas como Taylor Swift, Beyoncé, Anitta e BTS. Comunidades acostumadas a organizar mutirões nas redes, compartilhar publicações e impulsionar hashtags passaram a utilizar essas mesmas práticas para participar do debate eleitoral. Os adesivos de campanha também ganharam versões com frases bem-humoradas e referências à cultura pop.

As iniciativas não significam que todos os jovens participem da política da mesma maneira ou defendam as mesmas ideias. Elas mostram, porém, como manifestações políticas podem assumir formatos diferentes daqueles tradicionalmente associados às campanhas eleitorais.

Jovens sempre se mobilizaram, mas a internet ampliou o alcance

A aproximação entre política e entretenimento é uma das transformações destacadas por Issaaf Karhawi, professora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e pesquisadora da cultura dos influenciadores digitais. Em entrevista ao g1, ela afirmou que esses formatos ajudam a levar o debate político às novas gerações.

“Isso também é fazer comunicação política, reconhecer que há diferentes gerações e que é preciso conversar com cada uma delas por vários meios”, disse a pesquisadora ao portal.

Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, também avalia que as ferramentas digitais ampliam formas de mobilização que já existiam entre os jovens. Em declaração ao g1, ele lembrou que a participação juvenil já esteve presente no movimento estudantil, nos festivais de música, no movimento dos caras-pintadas e no hip-hop.

“O que muda agora é a escala. A internet se universalizou, e com ela uma cultura que nasce e circula na rede: o jogo online, o fã-clube, o funk, o meme”, afirmou Meirelles.

A mudança, portanto, não está necessariamente no interesse dos jovens pela política, mas também nos meios utilizados para expressá-lo. As redes permitem que uma ação organizada por um grupo pequeno alcance outros usuários, seja reproduzida em diferentes plataformas e, em alguns casos, chegue às ruas.

Curtidas e viralização significam mudança de voto?

Apesar da visibilidade das mobilizações digitais, o engajamento nas redes não se traduz automaticamente em mudança de posicionamento político. Uma publicação viral pode circular principalmente entre pessoas que já apoiam determinado candidato, sem necessariamente alcançar quem pensa de maneira diferente.

Karhawi chama atenção para o papel dos algoritmos nesse processo. Segundo a pesquisadora, os sistemas das plataformas selecionam e priorizam conteúdos com base nos interesses de cada usuário, o que pode limitar o contato com opiniões divergentes. Em entrevista ao g1, ela explicou que esse mecanismo contribui para a formação de bolhas nas redes sociais.

Meirelles também ponderou que uma carreata virtual, por si só, dificilmente determina o voto de alguém. Para ele, a influência pode acontecer quando a participação digital estimula conversas entre amigos, colegas e familiares.

“Raramente é a carreata no Roblox que muda um voto. Avatar não vota. O que muda o voto é o eleitor que se engajou por causa dela e passa a conversar com colegas, amigos e família. É dessa conversa que sai o voto”, afirmou ao g1.

O especialista acrescentou que essas práticas podem aproximar a política da vida cotidiana, fazendo com que o assunto apareça em ambientes como grupos de amigos, escolas e comunidades on-line.

As novas formas de participação, portanto, não eliminam os desafios do debate público. A circulação de informações falsas, a polarização e a dificuldade de dialogar com quem pensa diferente continuam sendo questões importantes. Ao mesmo tempo, jogos, músicas, fandoms e outras expressões culturais mostram que a política pode ultrapassar os espaços institucionais e se tornar parte de experiências que os jovens já compartilham.

Mais do que uma simples mudança de linguagem nas campanhas, esse movimento revela uma disputa pela atenção e pela participação de uma geração que também constrói suas relações com a política a partir dos ambientes digitais.

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