Negociação de paz

Após cúpula, Trump suspenderá os exercícios militares com Seul

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Anúncio foi feito por americano logo depois da assinatura de declaração conjunta na qual Washington dá garantias de segurança e Pyongyang promete desnuclearização; para especialistas, Kim foi o grande vencedor

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Trump dá entrevista depois de assinar o documento final da cúpula com Kim Jong-un
Trump dá entrevista depois de assinar o documento final da cúpula com Kim Jong-un


CINGAPURA - O presidente americano, Donald Trump, anunciou O que ordenará a suspensão dos exercícios militares dos Estados Unidos na Península Coreana, e que espera que o ditador Kim Jong-un caminhe "muito rapidamente" para desmantelar o arsenal nuclear da Coreia do Norte, como prometido na declaração conjunta assinada pouco antes pelos dois dirigentes.

Para analistas, a suspensão dos exercícios é uma grande concessão americana, embora Trump tenha afirmado que os Estados Unidos não "cederam nada" por enquanto. Os EUA mantêm tropas na Coreia do Sul desde o fim da Guerra da Coreia, que sedimentou a divisão da península, em 1953. Atualmente, são cerca de 28 mil soldados, e a realização de exercícios conjuntos com as forças sul-coreanas tem sido historicamente acompanhada de protestos norte-coreanos.

Em entrevista coletiva ao fim da primeira cúpula entre um presidente americano e um dirigente norte-coreano, Trump disse que as sanções econômicas contra a Coreia do Norte continuarão em vigor por enquanto. Ao anunciar a suspensão do que chamou de "jogos de guerra", Trump disse que eles são muito caros e "provocativos". Ele não especificou quando exatamente ocorrerá a suspensão.

O anúncio surpreendeu os sul-coreanos e as próprias tropas americanas na Coreia do Sul. Ao comentá-lo, um porta-voz do governo de Seul disse que "neste momento, o sentido e a intenção das declarações do presidente Trump requerem esclarecimentos". Acrescentou que o país está disposto a "explorar várias medidas para ajudar as conversas a avançar".

Um porta-voz das forças militares americanas na Coreia do Sul disse não ter recebido nenhuma instrução para cessar as atividades militares conjuntas:

"As Forças dos Estados Unidos na Coreia não receberam nenhuma orientação sobre a execução ou suspensão dos exercícios de treinamento - incluindo o Guardião da Liberdade, marcado para este outono -, disse a porta-voz Jennifer Lovett. "Em coordenação com nossos parceiros da República da Coreia, vamos continuar com a atual postura militar, até recebermos instruções atualizadas do Departamento de Defesa e/ou do Comando Indo-Pacífico".

Um funcionário sul-coreano disse, em off, que inicialmente achou que Trump tivesse se enganado: "Fiquei chocado quando eles chamou os exercícios de 'provocativos', uma palavra que dificilmente seria usada por um presidente americano".

Promessas

No comunicado conjunto assinado com Kim, Trump se comprometeu a dar "garantias de segurança" à Coreia do Norte, enquanto Kim "reafirmou seu compromisso firme e inabalável com a desnuclearização completa da Península Coreana".

"Tivemos um encontro histórico e decidimos deixar o passado para trás", disse Kim na assinatura da declaração conjunta. "O mundo verá uma grande mudança. "Vamos cuidar de um problema muito grande e muito perigoso para o mundo", afirmou Trump.

Não foram dados detalhes sobre o cronograma das negociações abertas pelos dois líderes. Do lado americano, elas serão conduzidas pelo secretário de Estado, Mike Pompeo. Trump disse na entrevista coletiva que já haverá um novo encontro entre os negociadores na próxima semana.

Na declaração conjunta, Trump e Kim também prometeram "unir esforços para construir um regime de paz duradouro e estável" na Península Coreana, numa referência a um possível acordo de paz para pôr fim formalmente à Guerra da Coreia, que foi encerrada com uma trégua.

Kim talentoso

Trump disse na coletiva que não iria voltar atrás na sua descrição de Kim como "talentoso".

"Bem, ele é muito talentoso. Qualquer um que assuma uma situação aos 26 anos, como ele fez, e é capaz de administrá-la, e administrá-la com firmeza. Não digo que ele seja agradável".

Questionado pelos jornalistas, o presidente americano disse que levantou a questão dos direitos humanos no encontro com Kim, e que acredita que o líder norte-coreano quer "fazer a coisa certa".

"Eu acredito que é uma situação difícil lá, não há dúvida sobre isso, e nós discutimos isso hoje com bastante força... muito bem, e vamos fazer algo sobre isso", disse.

Morte de estudante

Trump afirmou ainda que o estudante universitário americano Otto Warmbier não morreu em vão depois de ser preso na Coreia do Norte, um vez que sua morte em 2017 ajudou a iniciar o processo de aproximação dos dois países.

"Sem Otto, isso não teria acontecido", disse. "Algo aconteceu a partir daquele dia. Foi uma coisa terrível, foi brutal, mas muitas pessoas começaram a se concentrar no que estava acontecendo, incluindo a Coreia do Norte. "Eu realmente acho que Otto não morreu em vão",completou Trump.

Warmbier, um estudante da Universidade da Virgínia, morreu aos 22 anos, dias depois de ter retornado aos Estados Unidos em coma após ser solto pela Coreia do Norte.

Ele havia sido preso na Coreia do Norte em janeiro de 2016, depois de ter sido condenado a 15 anos de trabalhos forçados por tentar roubar um item com um slogan de propaganda do seu hotel, segundo a mídia estatal norte-coreana.

Um médico legista de Ohio disse que a causa da morte foi falta de oxigênio e sangue para o cérebro. A Coreia do Norte culpou botulismo e a ingestão de uma pílula para dormir, e descartou alegações de tortura.

Kim é o grande vencedor

Independentemente dos resultados apresentados após a histórica cúpula entre o presidente americano, Donald Trump, e o líder norte-coreano, Kim Jon-un, a Coreia do Norte sai como grande vencedora do encontro.

Para Jenny Town, editora-chefe do 38 North, site de notícias sobre a Coreia do Norte, o regime ganhou uma batalha de relações públicas nos últimos seis meses com enorme habilidade. A exibição do poder de negociação de Kim começou com as reuniões com o presidente chinês Xi Jinping e a cúpula com o sul-coreano Moon Jae-in, e termina agora com a confraternização com o americano — e com a equipe de política externa da Casa Branca no luxuoso cenário de Cingapura — “com multidões de espectadores tentando tirar fotos como se ele fosse um ídolo de rock”.

"É realmente incrível como ele passou de anos sendo um dos líderes mundiais mais odiados e vilipendiados para essa superestrela política em menos de seis meses", afirmou Town. "Independentemente do resultado da cúpula, Kim já sai como grande vitorioso, e uma vez que se abstenha de testes nucleares e de mísseis, será visto como resiliente na imaginação do mundo, mesmo em meio a oscilações potenciais do humor no futuro".

"Kim teve a oportunidade de estar na cúpula sem ter que fazer nada em relação à desnuclearização antecipadamente. Isso proporciona uma sensação de legitimidade não apenas para o Estado, mas também para seu status nuclear. Os encontros de Kim com Xi Jinping, agora com Trump e logo com (Vladmir) Putin reforçam sua percepção de estar em paridade estratégica com as grandes potências".

Town lembra, no entanto, que Trump também sai ganhando, principalmente no cenário interno. "É um grande gesto inicial para iniciar o processo para que ambos possam obter uma ‘vitória’, mas é também uma grande vitória política para Trump, especialmente na sua base interna", explicou a especialista."Um ganho na Coreia do Norte, que é vista como um dos problemas mais intratáveis do mundo, ajuda a esquecer os outros erros de sua política externa e exibe confiança à sua base, mostrando que especialistas são apenas ‘inimigos’, querendo que Trump falhe".

A questão agora é: pode esta reunião - marcada pela abordagem não convencional com a Coreia do Norte - trazer resultados?

"A oportunidade para criar uma abordagem que poderia nos levar mais longe em um processo que já iniciamos antes está dada. Mas os riscos também são altos, e, se não conseguirmos os resultados desejados, a situação pode se deteriorar tão rapidamente quanto melhorou

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Íntegra do texto do documento

assinado por Trump e Kim

O presidente americano Donald Trump e o líder norte-coreano Kim Jong-un assinaram ontem, 12, em Singapura um documento comum, no qual o dirigente norte-coreano se compromete com uma desnuclearização completa da península coreana.

Leia a seguir o texto assinado após o encontro histórico:

"O presidente Trump e presidente Kim Jong-un mantiveram uma profunda, completa e sincera troca de pontos de vista sobre questões relativas ao estabelecimento de novas relações entre os Estados Unidos e a RPDC (República Popular Democrática da Coreia) e à construção de um regime de paz sólido e duradouro na península coreana.

O presidente Trump se comprometeu a dar garantias à RPDC, e o presidente Kim Jong-un reafirmou seu firme e inquebrantável compromisso com a total desnuclearização da península coreana.

Convictos de que o estabelecimento de novas relações Estados Unidos-RPDC contribuirá para a paz e a prosperidade da península coreana e do mundo, e reconhecendo que o estabelecimento da confiança mútua pode promover a desnuclearização da península coreana, o presidente Trump e o presidente Kim Jong-un declaram:

1. Os Estados Unidos e a RPDC se comprometem a estabelecer novas relações entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte, de acordo com o desejo de paz e de prosperidade dos povos dos dois países.

2. Os Estados Unidos e a RPDC unirão seus esforços para construir um regime de paz duradoura e estável na península coreana.

3. Reafirmando a Declaração de Panmunjom de 27 de abril de 2018 (publicada em uma cúpula intercoreana, N.R.), a RPDC se compromete a trabalhar para a desnuclearização completa da península coreana.

4. Os Estados Unidos e a RPRC se comprometem a recuperar os restos mortais de prisioneiros de guerra e desaparecidos em ação, incluindo a repatriação imediata daqueles já identificados.

Reconhecendo que a cúpula dos Estados Unidos/RPDC, a primeira deste tipo, é um evento marcante, que nesta data vira a página de décadas de tensão e de hostilidades entre os dois países e augura um novo futuro, o presidente Trump e o presidente Kim Jong-un se comprometem a implementar as disposições desta declaração conjunta de maneira incansável.

Os Estados Unidos e a RPDC se comprometeram a realizar negociações de acompanhamento, conduzidas pelo secretário de Estado, Mike Pompeo, e um homólogo de alto nível da Coreia do Norte, para implementar os resultados da cúpula dos Estados Unidos/RPDC.

O presidente Donald Trump e o presidente Kim Jong-un se comprometem a cooperar para o desenvolvimento de novas relações entre os Estados Unidos e a RPDC e a promoção da paz, da prosperidade e da segurança da península coreana e do mundo".

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