Vida Ciência

Veículos de divulgação científica no MA

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Neste mês em que pagina Vida Ciência completa um ano de atividade, vamos discorrer sobre fatos determinantes no processo da construção cientificista no Maranhão, em especial a divulgação científica, no final do século 19 e início do século 20

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Veículos de divulgação científica no MA
Estudante interagindo com fonte de Van der Graff na Ilha da Ciência/UFMA

A divulgação científica e cultural desempenha um papel de fundamental importância na desmistificação da ciência e na aproximação entre a sociedade e as descobertas científicas. Na história da divulgação e propagação da ciência, várias foram as iniciativas que influenciaram gradativamente no desenvolvimento de uma consciência científica. No caso do Brasil, muito pouco se conhece e chega-se mesmo a imaginar que não existiram ou que foram insignificantes durante quase todo o período histórico brasileiro e que somente no final do século XX se poderia falar em divulgação cientifica.

Neste mês em que a página Vida Ciência completa um ano de atividade, vamos discorrer sobre fatos determinantes no processo da construção cientificista no Maranhão, em especial a divulgação científica, no final do século XIX e início do século XX. Os aspectos aqui abordados são frutos de leituras, reflexões, debates e pesquisas desenvolvidas em nível local e nacional, na qual o foco é a popularização da Ciência. Dentre as publicações, destaca-se a Revista Maranhense: Artes, Ciência e Letras, considerada o primeiro veículo de divulgação da ciência, que circulou no estado, em duas fases.

Revista Maranhense
A Revista Maranhense surgiu em 1887 na forma de uma publicação regional, mensal, literária e científica. Na primeira edição, teve uma vida efêmera, sendo publicados três volumes cujo redator chefe foi Augusto Britto. Levantamentos bibliográficos apontam que há uma referência sobre a primeira fase da publicação do conto “A Escrava”, escrito por Maria Firmina dos Reis, no terceiro número da Revista Maranhense, ano 1, 1887.

A publicação de “A Escrava”, obra que representa o auge da maturidade intelectual de Maria Firmina dos Reis em 1987, foi meses antes da Lei Áurea. O texto denuncia as injustiças oriundas do sistema escravagista brasileiro e chama à atenção as condições subumanas às quais os cativos haviam sido relegados, do mesmo modo em que aponta para o lugar obscuro que cercava as mulheres naquele contexto político-cultural de final de século.

Para a divulgação da Revista, o editor-chefe utilizava jornal O Diário do Maranhão, que em sua edição número 4.288 divulgou uma nota informando que, “por motivos ponderosos, deixa de ser publicado este mês de dezembro corrente o número quatro da Revista Maranhense, com a qual começará no segundo trimestre” (Diário do Maranhão, 23/12/1887). Este fato marcou o fim da primeira versão de uma revista científica no estado.

Em março de 1916, um grupo de rapazes constituído, entre outros, por Astrolábio Caldas, Fulgêncio Pinto, José Monteiro e Francisco Figueiredo, que se denominavam novos atenienses, lançaram novamente a Revista Maranhense. Pelos artigos presentes na primeira edição de 1916 demonstravam se tratar de jovens preocupados com a instrução e a tradicionalidade que a cidade na época, ou anterior àquela época, tinha em produzir talentos como Gonçalves Dias, Aluísio e Arthur Azevedo, Nina Rodrigues e Gomes de Souza, consagrados nacionalmente, além de João Lisboa e Antonio Lobo. O conteúdo da Revista Maranhense incluía ciência, cultura e sociedade e com certeza foi um reflexo da efervescência gerada pelas discussões em torno da ciência em todo país, geradas pelas descobertas científicas daquele momento e pela conscientização de que a ciência era a mola propulsora do desenvolvimento. A Revista Maranhense apresentou-se como um periódico que, apesar de surgir nas mesmas condições em que surgiram os jornais, pelo interesse de um grupo de jovens intelectuais empolgados com as novas tecnologias da época, possuía, no entanto, um diferencial que lhe conferia uma conotação especial. A revista, pela primeira vez no estado, despertava para o interesse e importância da ciência e da educação como fator transformador da sociedade, tornando-a mais instigante ainda. Esta conotação é claramente percebida nos espaços dedicados aos artigos que falam de ciência e de educação, além de observar-se uma característica poética bem marcante.

A Revista Maranhense: Artes, Ciências e Letras, em sua segunda edição, circulou de março de 1916 a outubro de 1920 com os números 64 e 65 numa única publicação. Suas matérias eram bastante diversificadas, com poesias e textos que dissertavam sobre a Guerra, Naturismo, Física, Química, Medicina, assim como temas tratados em Astronomia, Literatura, História e muitos outros, pois não havia restrição a nenhuma área do conhecimento. Em Astronomia, foram debatidos temas como: o Sol, as Estrelas, o Universo e outros. Em literatura, temas como: A Saudade, Poesias etc, e em história foram discutidos assuntos sobre Tiradentes, 13 de maio, 21 de abril, além das palestras comemorativas de datas solenes em celebração a fatos históricos importantes, como a Proclamação da República e o Dia do Trabalho.

Universidade Popular
Um produto direto desta publicação, em especial da primeira edição, foi a fundação, em 1909, da Universidade Popular. Os “cultores” das letras, capitaneado por Antônio Lobo e que residiam em São Luís, concordaram que a Universidade Popular iria funcionar semanalmente, às quintas-feiras, no salão nobre da Biblioteca Pública Estadual. É importante frisar que as conferências da universidade ficaram restritas a algumas áreas do conhecimento, como História Geral, Direito, Astronomia e Literatura.

Se fizermos uma análise crítica sobre as atividades desenvolvidas pela Universidade Popular, percebe-se que foi de grande relevância social pelas grandes discussões de temas universais que tratavam. Mas, se levarmos em conta que a universidade é um espaço onde se pratica a pesquisa, o ensino e a extensão, como elementos indissociáveis cujas atividades devem estar direcionadas dentro do contexto histórico no qual estão inseridas, se pode afirmar que Universidade Popular do Maranhão pouco cumpriu seu papel, uma vez que a realidade local em nenhum momento foi levada em conta.

A Universidade Popular, portanto, isolou-se do espaço real, dentro do qual poderia provocar mudanças significativas, ficando os intelectuais no campo das discussões de relevância geral, à parte dos problemas locais. Contudo, vale pontuar que a ideia de se criar uma Universidade Popular no Maranhão foi muito importante, uma vez que deu margem para que outras iniciativas emergissem no campo educacional, além do que no científico organizou os intelectuais em torno das questões referentes à ciência e à valorização do conhecimento.

Escola de Ensaio
Num momento mais à frente, em que a Revista Maranhense estava em pleno vigor de divulgação e circulação no estado, surge a iniciativa de se criar um espaço que propiciasse maior interação entre os intelectuais, os temas relevantes para a sociedade e a população em geral no estado do Maranhão. Dessa forma, surge a Escola de Ensaio, que representa a concretização dos objetivos que os organizadores da Revista Maranhense tinham em popularizar a educação e a ciência como forma de desenvolvimento social, materializando sua contribuição para a educação no estado com a criação de um espaço aberto ao público que incentivava a discussão, exploração da problemática social e de propostas convenientes para a solução das situações de emergência.

Tal como a Universidade Popular, a Escola de Ensaio surgiu em um contexto de questionamento dos movimentos sociais sobre a ordem estabelecida. Foi criada em 1919, por proposição de Astrolábio Caldas, redator-chefe e participante ativo da Revista Maranhense, e que após análise de seus objetivos e interesses foi aceita por outros intelectuais maranhenses. A Escola de Ensaio tinha por finalidade promover palestras científicas e literárias à comunidade estudantil do Maranhão nas manhãs de domingo e como instrumentos de divulgação de seus trabalhos o Diário de São Luís, Diário do Maranhão, O Jornal e outros meios de comunicação locais. As conferências eram sempre lotadas, pela importância do assunto ou pelo interesse em participar de mais um evento proporcionado pela intelectualidade maranhense.

Crianças fazendo Ciência no Ilha da Ciência

100 anos depois
Após 100 anos, estamos vivendo hoje no estado outro momento de divulgação da ciência. Temos a Revista Inovação, periódico científico produzido pela Fundação de Amparo à Pesquisa e ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico do Maranhão – Fapema.

De periodicidade trimestral, a Revista Inovação traz artigos científicos, agenda de eventos na área da Ciência, Tecnologia e Inovação, reportagens científicas especiais, entrevistas e curiosidades, bem como o programa Rádio Ciência da Universidade FM, programa de rádio com reportagem local produzida pelo Núcleo de Jornalismo da UFMA, mostrando aspectos científicos e pesquisas locais (UFMA, Uema, Uniceuma, entre outras faculdades).

Outra ação de divulgação e popularização da ciência são as ações do Laboratório de Divulgação Científica Ilha da Ciência, do Departamento de Física da UFMA, criado sob minha coordenação, com o objetivo de tornar a ciência um bem popular. Realiza ações voltadas para formação e informação científica, por meio de atividades diferenciadas e lúdicas de aprendizagem, nas quais são integrados o discurso acadêmico, a linguagem coloquial, o ensino formal e o informal, convertendo-se em um espaço de aprendizagem permanente do grande público - adulto e crianças -, desenvolvendo materiais instrucionais e equipamentos de ensino de ciência e da divulgação científica, formando estudantes de ensino fundamental, médio, graduação e pós-graduação lato e stricto sensu.

O Laboratório adquiriu um veiculo (van) para levar a “Ciência onde o Povo está” como uma extensão inovadora por meio de uma Ciência Móvel dotada de um planetário móvel com projeção 3-D e telescópios de alta definição. Contamos com um espaço para uma exposição permanente para visitação de escolas, estudantes de ensino médio e fundamental.

O Ilha da Ciência assessora ainda a página Vida Ciência com periodicidade mensal, veiculada mensalmente no jornal O Estado, um dos maiores veículos de divulgação diária do Maranhão. Nesse primeiro ano, falamos de Astronomia, Terra, Campo Magnético, personalidades que marcaram a história da ciência, geração e conservação de energia, eventos científicos, e desde já agradecemos a todos que diretamente e indiretamente contribuíram para sua publicação e esperando, como professor e cientista do nosso estado. Vida longa a esse canal de divulgação, para que transforme o Maranhão em um estado produtor de ciência e de cientistas.

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