Perigo à vista

Falta de opção: chuva não afasta moradores de áreas de risco

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O Estado percorreu três localidades indicadas pela Prefeitura de São Luís como propícias para deslizamentos de terra e constatou que mortes ainda podem ocorrer; quem mora nesses locais, porém, não tem opção senão ficar

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Falta de opção: chuva não afasta moradores de áreas de risco
EM 2009, deslizamento causou duas mortes (Foto: Biné Morais / O ESTADO)

“Eu simplesmente não tenho para onde ir. Fico aqui não porque quero, mas porque não posso”. A frase é da dona de casa Maria das Dores Alencar, de 53 anos, moradora do bairro Salina do Sacavém, uma das localidades com maior incidência de áreas de risco de deslizamento de terra da capital maranhense, de acordo com levantamento da Prefeitura de São Luís. Ela tem o mesmo nome de uma das vítimas do desmoronamento ocorrido no bairro, em 11 de abril de 2009. Na ocasião, duas pessoas - o pedreiro José Luís Melo Amorim, 25 anos, e a sua companheira, Maria da Glória - morreram soterradas.

Nem mesmo as chuvas registradas no início deste ano e as previsões meteorológicas para a capital, que apontam para a intensificação do período chuvoso nas próximas semanas, inibem as famílias. Elas apontam dois fatores para a escolha de viver e um imóvel que pode ser coberto por terra a qualquer nova precipitação: falta de dinheiro e ações efetivas do poder público. “A gente sente falta dos políticos aqui”, disse o jovem Mateus Cruz, de 21 anos. Ele mora com o padrasto, a mãe e a irmã, em um casebre construído há três anos por eles, a poucos metros de um precipício, na Salina do Sacavém.

Segundo o adolescente, que estuda para “morar em uma casa melhor” - como ele mesmo justifica –, nenhum representante da Defesa Civil Municipal esteve no local nas últimas semanas. “Não. Até agora, ninguém veio aqui”, disse. Questionado, ele não se lembra de quando foi a última visita do poder público no local.

Somada à ausência direta do poder público, de acordo com moradores, nas localidades com maior risco, está a falta de consciência da própria população. O Estado esteve na tarde de quinta-feira, 11, no mesmo local em que foi registrado o soterramento, no bairro Salina do Sacavém, há quase nove anos, e constatou que um casebre foi erguido no local.

Nenhum morador soube ou quis informar quem construiu a casa. Outros imóveis também foram erguidos bem próximos à barreira, que desabou em 2009. Um deles é justamente onde mora Mateus Cruz. “A gente sente medo, mas não pensa em sair daqui”, disse.

Outros locais
O Estado
também esteve no bairro Coroadinho, que registrou a mais recente morte por soterramento na capital maranhense, registrada em maio de 2014. Na ocasião, a adolescente Joliane Cristina Ramos, de apenas 13 anos, foi coberta pelos escombros da casa onde residia, levada após um deslizamento de terra. Na Avenida Babilônia, local da tragédia, é possível ver várias casas a poucos metros de encostas. Além de residências, pontos comerciais (como lojas de materiais de construção) também foram erguidos nas proximidades sem planejamento urbano.

Na Vila Embratel, no conjunto Piancó, casas também foram montadas próximo a precipícios. O detalhe é que elas estão no local há pelo menos 10 anos. O bairro é também apontado pelo Município como um dos pontos de maior preocupação quanto a deslizamentos de terra.

Atualmente, casa permanece no meio da barreira (Foto: Biné Morais / O ESTADO)

Um dos moradores que convive com um precipício no quintal de sua casa é o autônomo Leandro Souza. Ele vive com a mãe em um imóvel com três compartimentos, construído ao lado de uma barreira. Além de árvores, uma casa na parte de cima representa um perigo, especialmente nos dias chuvosos. “A gente tem medo, mas fazer o quê? Tem de pedir a Deus para não ter nada com a gente”, disse. Segundo ele, no período chuvoso do ano passado, houve um desmoronamento de proporções consideradas baixas. “Atingiu uma parte da casa vizinha. Nada mais do que isso. A minha casa escapou”, afirmou.

Ele confirmou ainda a visita de agentes da Defesa Civil Municipal há algumas semanas. No entanto, segundo ele, os técnicos do órgão não estiveram em sua casa. “A última vez que recebi algum agente da Defesa Civil por aqui foi há vários anos. Nem me lembro mais ao certo. Outro dia, eles passaram em um carro, mas não vieram aqui não”, disse.

Monitoramento
No dia 9 deste mês, a Prefeitura de São Luís – por meio da Defesa Civil – finalizou o mapeamento das chamadas áreas de risco na cidade. De acordo com o órgão, até o momento 60 pontos foram constatados com residências que estão sob ameaça de soterramento. Alguns dos moradores que possuem imóveis nestas áreas estão sendo beneficiados com os chamados “aluguéis sociais”. No entanto, o próprio Município reconhece que parte das pessoas não quer deixar as casas ameaçadas.

No dia 21 de setembro do ano passado, a Prefeitura entregou 21 unidades habitacionais no Residencial Rio das Bicas II, área do Polo Coroadinho. A entrega dos novos imóveis faz parte do programa de Recuperação Ambiental e Melhoria da Qualidade de Vida da Bacia do Bacanga, em São Luís. O Município, até o momento, não informou se outras localidades serão beneficiadas.

Chuvas deverão se intensificar

As chuvas deverão ser mais intensas, nas próximas semanas, na capital maranhense. A informação é do Núcleo de Meteorologia da Universidade Estadual do Maranhão (Uema). De acordo com o órgão, os índices pluviométricos deverão se elevar e atingir os patamares da média histórica registrada na cidade nos últimos trinta anos.

No dia 10 deste mês, durante a chuva registrada na madrugada, caíram aproximadamente 41,75 milímetros, índice considerado alto. Até o momento, segundo o estudo da Uema, choveu 139,25 milímetros, quase a metade do volume de chuvas esperado para o período. A capital perde, em volume pluviométrico no estado, apenas para a cidade de Zé Doca (com 144,6 milímetros). “A tendência é que este patamar se eleve ainda mais. Trata-se de uma tendência para os meses de janeiro, fevereiro e março deste ano”, disse o meteorologista Gunter Reschke, do Núcleo de Meteorologia da Uema.

Com as chuvas, o solo das áreas de risco tende a ceder pela falta de proteção vegetal e construções feitas nestes locais. Nas três mortes registradas nos anos de 2009 e 2014 na capital maranhense (no Coroadinho e na Salina do Sacavém), este fator foi fundamental para o deslizamento de terra e, em consequência, para as mortes.

SAIBA MAIS

Contato

Para outras informações acerca das áreas de risco ou para solicitações de serviços, basta ligar para a Defesa Civil Municipal, através dos telefones 153 ou 3212-8473.

Números

3 foi o número de mortes devido aos deslizamentos de terra de 2009 para cá
60 é a quantidade de áreas de risco na capital maranhense

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