SOL A SOL

A exaustiva rotina de quem trabalha sob o sol em São Luís

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Trabalhar ao ar livre pode parecer uma boa ideia, mas passar o dia sob o sol forte e sem os cuidados certos, além do cansaço, pode causar muitos danos à saúde

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A exaustiva rotina de quem trabalha sob o sol em São Luís
Elissandra trabalha de 7h às 15h30 sob o sol (Foto: Biné Morais / O ESTADO)

Eles trabalham ao ar livre, livres também das quatro paredes dos escritórios. Mas, no verão, é o sol escaldante e as altas temperaturas que desafiam profissionais como carteiros, vendedores de picolé, trabalhadores da construção civil, servidores da equipe de varrição da Prefeitura, agricultores... E como driblar o calor, nessa rotina? Será que eles usam as roupas adequadas, óculos de sol e o fundamental protetor solar? Esta semana, O Estado foi às ruas atrás destas respostas e descobriu que muitas vezes o sol é o menor dos desconfortos.

Há 5 anos, Elissandra Lisboa Costa trabalha na limpeza urbana de São Luís. A rotina é cansativa. Ela começa às 7h e segue até as 15h30. Nesse intervalo, varre o meio-fio, recolhe o lixo e retira o excesso de terra do chão das ruas e avenidas. A distância percorrida diariamente varia de acordo com o roteiro e a concentração de lixo. Faça chuva ou sol, a disposição tem de ser sempre a mesma.


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E é justamente o sol um dos principais obstáculos a serem superados durante o dia de trabalho. “Com certeza, a maior dificuldade é o sol. A gente se cansa mais rápido, mas não pode esmorecer, porque tem muita coisa para limpar. Então, a gente dá umas paradas rápidas para respirar, tomar uma água e já retoma para poder limpar todo o trecho [nome que dá ao caminho a ser percorrido pela equipe]”, comenta. Quando conversou com O Estado, Elissandra Lisboa estava responsável pela limpeza de um trecho da Avenida dos Holandeses, próximo ao Barramar.

Eu tomo água o tempo inteiro e só uso blusa de manga comprida, além do boné. Se não, a gente não aguentar varrer nesse calor todo” Elissandra Lisboa Costa, Agente de limpeza urbana de São Luís

O trabalho sob o sol forte requer alguns cuidados. Ela até sabe disso, mas confessa que não segue as recomendações tão ao pé da letra. “O certo seria eu usar protetor solar todos os dias, mas não gosto muito. Ele é cremoso e a gente sua muito. Com isso, a pele fica grudenta. Isso me incomoda um pouco. Só uso às vezes”, diz.

Mas um cuidado que é muito mais uma necessidade do corpo ela não deixar de tomar: água. É como um combustível para esses profissionais, que literalmente trabalham de sol a sol. “Sempre trago água comigo. Minha parceira de trabalho também nunca deixa faltar água. A gente também recebe água do nosso fiscal, que vem trazer para a gente. E quando acaba, a gente pede na vizinhança. As pessoas sempre ajudam. Nunca passamos sede, porque sem beber a gente não se aguenta em pé”, afirma.

Janete Santos e sua companheira atuam como divulgadoras (Foto: Biné Morais / O ESTADO)

Quem também trabalhava próximo de Elissandra Lisboa Costa era Janete Santos. Ela é “divulgadora” e diariamente exibe uma placa com ofertas de uma concessionária de veículos no semáforo do Barramar. Basta o semáforo acender a luz vermelha que ela e a companheira vão para a faixa de pedestres. Elas precisam ser rápidas e ficarem atentas para voltar para a calçada assim que a luz verde se acender. É uma rotina exaustiva. “Esta é a primeira vez que eu trabalho com isso. Estava precisando de dinheiro, então, aceitei”, conta.

Mas nem mesmo a disposição para o trabalho diminui a exaustão causada pelo sol. E olha que ela já está acostumada a esta rotina. Antes de trabalhar como “divulgadora” ela vendia suquinho de porta em porta, andando sob o sol. “Para a aguentar esse tipo de trabalho ao gente bebe muita água. Por dia, só no período em que estou aqui no sinal [das 9h às 13h] eu bebo cerca de três litros de água”, informa.

Sandra Cristina Castro, 44 anos, é “panfleteira”. Todos os dias ela está no sinal da Avenida Jerônimo de Albuquerque, na altura do Angelim. A rotina dela começa às 7h30 e só termina às 17h30. Mas para ela o sol é o menor dos problemas. “Claro que o sol cansa, mas se as pessoas fossem mais educadas seria mais fácil de lidar. Tem pessoas que veem a gente aqui no sinal, entregando panfleto no sol, e acha que a gente não merece respeito”, desabafa.

Sandra reclama da falta de educação da população, que lhe causa mais efeitos nocivos do que o sol forte (Foto: Biné Morais / O ESTADO)

Da falta de educação das pessoas ela não tem muito como se prevenir, mas dos efeitos do sol e do calor ela toma certos cuidados. Como o uso de boné, a inseparável garrafinha d’água e filtro solar, mas só quando lembra. “Até tenho, mas sempre me esqueço de usar. Passo quando lembro”, diz entre risos.


SAIBA MAIS

O trabalho realizado sob radiação solar não é, atualmente, considerado insalubre pela Justiça, o que desobriga as empresas de pagarem o adicional de insalubridade aos funcionários que exercem atividades expostos ao sol. No entanto, decisão recente, de janeiro de 2015, do Tribunal Superior do Trabalho (TST) concedeu ganho de causa a uma
ex-funcionária da Usina Açucareira Passos S.A., em Minas Gerais. O TST considerou que a funcionária realizava suas atividades em condições insalubres a céu aberto, exposta ao sol e ao calor. Esta decisão abre precedente quanto à insalubridade, para outras atividades e casos que não estão previstos em leis ou na Norma Reguladora 15
(NR-15) do Ministério do Trabalho.
Adicional de insalubridade é o valor calculado sobre o salário mínimo da região e pago ao trabalhador que exerce função vulnerável a algum tipo de agente ou condição nocivas à sua saúde. O acréscimo ao salário do empregado pode ser de 40%, 20% ou 10%, de acordo com o nível de insalubridade.
Para uma atividade ou operação ser considerada insalubre ela precisa constar na Norma Regulamentadora de número 15 (NR-15), elaborada pelo Ministério do Trabalho e estar em conformidade ao Código de Leis Trabalhistas (CLT). O recebimento do adicional de insalubridade só ocorrerá mediante comprovação por um médico ou engenheiro do trabalho, devidamente registrado, e emissão de laudo pericial.
Baseando-se no artigo 189, da Consolidação das Leis do Trabalho, no anexo 7 da
NR-15 e no artigo 7º da Constituição Federal, muitos juízes entendem que a realização de trabalho sob exposição à radiação solar, sem a proteção adequada, deverá ser submetido ao pagamento de adicional de insalubridade.

NÚMEROS
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auxílios-doença foram concedidos em razão de câncer de pele no Maranhão em 2016
17 auxílios-doença foram concedidos em razão de câncer de pele no Maranhão em 2017

Fonte: Previdência Social

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