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“Não tinha alternativa a não ser estudar”

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Juiz e escritor Manoel Aureliano Neto nasceu em família pobre e viu nos estudos uma maneira de crescer e melhorar de vida

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Juiz e escritor Manoel Aureliano Neto foi eleito em março
Juiz e escritor Manoel Aureliano Neto foi eleito em março (Foto: De Jesus / O ESTADO)

O juiz e escritor Manoel Aureliano Neto tem a alma aventureira. Ele tenta negar, mas quer seja por se entregar a novos projetos ao longo da vida, ou pelos enredos e personagens dos livros a que se dedica com tanto afinco, ele vive aventuras. Viver, aliás, é seu único objetivo no momento. “Só quero viver, e isso é fazer o que te faz bem. No momento, para mim, é conviver com minha família e fazer as atividades que me dão prazer: ler, ouvir música e ver filmes”, diz.

Manoel Aureliano Neto foi eleito imortal da Academia Maranhense de Letras (AML) em março, passando a ocupar a cadeira de número 9, que tem como patrono Gonçalves Dias, uma coletânea ocupa lugar cativo em sua mesa de cabeceira. Seu antecessor na cadeira, José Maria Ramos Martins, foi um dos responsáveis por fazer o magistrado seguir o caminho das leis.

“Primeiro, fiz o vestibular para Letras na Faculdade de Filosofia, porque meu sonho era ser professor de Literatura brasileira. Uns 30 dias depois, passei para Direito. Lembro de ir à faculdade no dia do resultado para raspar a cabeça e comprar uma boina do curso. Quando voltei para o Belira, onde morava, as pessoas ficavam olhando, saíam mesmo na janela para me ver passar”, recorda. O espanto dos vizinhos tinha um motivo: era a primeira vez que um jovem da comunidade pobre entrava para a faculdade.

Estudos

Foi o primeiro também da família a entrar na faculdade. “Fui cria­do pelo meu avô, que era carroceiro, até os 7 anos. Depois, fui morar com minha tia Morena, que era costureira. Meu pai era carpinteiro e minha mãe, doméstica. Fui colocado para aprender o ofício de sapateiro aos 8 anos. Naquela época, filhos de famílias pobres tinham que aprender uma profissão cedo. Como eu tenho um defeito nos pés, meu pai dizia: ‘Você tem de saber fazer pelo menos os seus sapatos!’”, conta.

Manoel Aureliano não tinha habilidade alguma manual para o ofício. “Com 10 anos, fui aprender a ser linotipista, que era uma função melhor”, conta. Trabalhou como aprendiz primeiro no Diário da Manhã e depois no Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado (Sioge). Com 13, já era pré-operário e aos 15 substituiu um amigo em O Imparcial. “Aos 16 anos, trabalhava no Sioge das 22h às 5h, dormia parte da manhã e estudava à tarde. Eu achava que, para mim, o caminho era os livros. Eu não tinha outra alternativa a não ser estudar”.

Iniciou as duas faculdades, mas aos poucos, com as aulas dos professores Zé Maria e Orlando Leite, decidiu-se pelo Direito. A formação foi concluída no Rio de Janeiro, pois o escritor queria viver outras aventuras fora do Maranhão. Lá, começou a advogar e montou um cursinho pré-vestibular. Também atuava em uma editora. Mas a saudade da terrinha bateu, e um convite para ser advogado em Imperatriz o trouxe de volta ao estado. Vendeu tudo e voltou.

“Em Imperatriz, reconstruí minha vida. Lá, montei uma excelente banca advocatícia, comecei a lecionar nas faculdades e foi onde conheci minha esposa, Jacirema Coelho Ferreira”, comenta. Na cidade, construiu uma reputação e virou referência.

Experiência em advocacia ajudou na função de juiz

Antes de tornar-se juiz, Manoel Aureliano aventurou-se na política. Foi candidato a vice-governador em chapa encabeçada por Ricardo Archer, em 1982. Não obteve êxito. Tentou também para deputado estadual. “Brinco que as únicas eleições que ganhei foram para presidente da seccional da Ordem dos Advogados em Imperatriz e para imortal da academia”, diz, entre risos.

Começou a estudar para concursos quando já tinha carreira reconhecida em Imperatriz. Reunia-se com alguns amigos algumas ve­zes da semana para repassar o conteúdo. Os amigos passaram no concurso seguinte. Manoel Aureliano ficou na prova de Direito Pe­nal. Tempo depois, veio o convite para lecionar justamente a disciplina que lhe tirara do páreo. Ele aceitou o convite, encarando-o como um desafio.
No concurso seguinte, passou com êxito, mas aí ficou relutante em assumir. “Eu já tinha um escritório com uma banca excelente. Não tinha a intenção de ser juiz. Já até tinha passado em concursos menores, mas não havia assumido. Protelei por um tempo, mas fui chamado a tomar posse e, com as ponderações de minha esposa, decidi assumir”.

Foi enviado para Carutapera. Quase desistiu. “Na época, não havia luz lá e nem hospedagem. Pensei que não ia conseguir ficar, mas minha esposa alugou uma ca­sa e acabou dando tudo certo”, afirma. Empossado e exercendo, veio a certeza do porquê queria seguir na carreira. “Queria levar a minha experiência para a magistratura. Sabia que um processo tinha que ter início, meio e fim, e fiz isso como juiz. Decido, em geral, em banca, ali mesmo, na última audiência”, conta o juiz titular do 8º Juizado Especial Cível e de Relações de Consumo.

Manoel Aureliano Neto agora está na fase de “sossegar o facho” – como a tia Morena costumava falar, e após uns minutos de papo é fácil perceber onde está sua riqueza. Ela salta os olhos e está nas histórias de vida acumulada, na vida simples que parece levar e mais ainda no brilho no olhar de quem conheceu nas letras uma razão para viver.

MAIS

Manoel Aureliano Neto é casado há quase 40 anos com Jacirema Coelho Ferreira, com quem tem Aureliano, Bernadete e Thiago Coelho Ferreira. É bacharel em Direito, especialista em Direito Processual Civil e Direito Constitucional.

Foi professor nas universidades Federal (UFMA) e Estadual do Maranhão (Uema) e da Escola Superior da Magistratura do Estado do Maranhão e magistrado do Tribunal de Justiça do Maranhão. O magistrado já pertence aos quadros das Academias Imperatrizense de Letras e Maranhense de Letras Jurídicas.

Tem publicados os livros “A aplicação dos princípios da proporcionalidade e razoabilidade nas relações de consumo” (2008), “Juizados Especiais Cíveis e o novo CPC” (2015), “Crônicas e reflexões”, “Canções de uma vida” e, em coautoria, “Contos de Imperatriz”.

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