Importância esquecida

Fontes históricas estão abandonadas e necessitam de reforma urgente

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No fim do século XIX, duas Companhias de Água passaram a atuar em São Luís, fazendo com que as fontes fossem gradativamente perdendo sua importância na vida social da cidade e deixando de serem utilizadas

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Fontes históricas estão abandonadas e necessitam de reforma urgente
MULHER lava roupas na Fonte das Pedras, onde carrancas estão submersas (Foto: Flora Dolores / O ESTADO)

SÃO LUÍS - Quando Jerônimo de Albuquerque e suas tropas se abrigaram na Fonte das Pedras, em 1615, para expulsar os franceses de São Luís, certamente não toparam com pedaços de garrafas PET, recipientes usados para guardar comida e roupas estendidas para secar. Além das histórias sobre a presença dos três povos europeus que disputaram a Ilha de Upaon-Açu, o mais antigo nascedouro d’água construído na capital maranhense guarda hoje marcas do descaso e abandono pelo poder público e da falta de consciência da população. O mesmo se repete nas demais fontes históricas de São Luís.

No fim do século XIX, duas companhias de Água passaram a atuar em São Luís, fazendo com que as fontes fossem gradativamente perdendo sua importância na vida social da cidade e deixando de serem utilizadas. Nessa época, a cidade começou a contar com os primeiros serviços de distribuição de água encanada, esgoto e luz elétrica.

Apesar dos diversos problemas de preservação, a estrutura da Fonte das Pedras ainda remonta à exuberância dos tempos de seu papel de destaque no dia a dia da cidade. Exuberância que contrasta com o cenário de abandono em que ela se encontra. Atualmente, os peixes que ainda nadam no espelho d’água da fonte dividem o espaço com dezenas de folhas que caem das árvores, algo comum na natureza e com rastros da presença humana como pedaços de garrafas PET e recipientes usados para guardar comida.

Fora d’água, mais lixo se acumula, já que as lixeiras do local estão danificadas. Os 10 lampiões do local estão quebrados, deixando a fonte totalmente às escuras durante a noite. Os bancos que deveriam servir para o descanso e contemplação dos visitantes, se não estão quebrados, estão ocupados por pessoas que, sem ter onde morar, abrigam-se na fonte e, entre outros usos, estendem nos bancos as roupas que lavam com a água da fonte.

Ainda assim, há quem frequente o local, embora o sentimento ao chegar lá seja algo mais próximo do medo. “Sempre que venho ao centro de São Luís para fazer alguma compra paro para descansar aqui, mas fico com medo por causa da presença dos usuários de drogas. Nem meu celular, eu tiro do bolso quando estou aqui”, comenta o mecânico Isaías Santos Sousa.

Sem reforma
A fonte está nesta situação porque a última reforma que recebeu foi em 2008. Desde lá, o poder público tem feito poucas ações para manter o local atrativo aos visitantes. Em 2010, ela chegou a ser fechada para visitação após retirada das equipes da Guarda Municipal que faziam a segurança do monumento.
A fonte foi reaberta, mas a Guarda Municipal não voltou a fazer a segurança do local. Sem ação do poder público, no ano passado um grupo de artistas e outros moradores de São Luís se reuniram para fazer um mutirão de limpeza no local.

Situada à frente da Rua de São João, ladeada pelas ruas do Mocambo e da Inveja e com fundos que se confrontam com os da antiga Fábrica Santa Amélia, a fonte foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no livro de “Belas Artes - volume I” em 1963 e deveria ser também um ponto de visitação turística devido ao seu valor histórico, já que foi construída durante a invasão holandesa à Ilha de Upaon-Açu (1641/1644), servindo antes de abrigo às tropas de Jerônimo de Albuquerque quando da expulsão dos franceses (1615). Ela era utilizada no abastecimento de todas as embarcações que atravessavam o Atlântico ou seguiam para o interior do país, o que fazia dela um ponto estratégico durante o Brasil Colônia.

Carrancas não vertem mais água na Fonte do Ribeirão (Foto: Flora Dolores / O ESTADO)

Ribeirão
De todas as fontes da capital, nenhuma sofreu tantas intervenções e restaurações quanto a do Ribeirão. Foram 10 em 220 anos de existência. Esse número reflete também o fato de ela ter sido a que mais sofreu depedrações. Das mais graves, a mais recente foi em 1995, quando a estátua de Netuno foi atacada por vândalos na madrugada do dia 10 de abril. Na ocasião, ela foi derrubada, sofrendo muitas avarias e ficando totalmente fragmentada. No topo do frontão, apenas a base e parte dos pés da estátua permaneceram.

Por ser também a que mais sofreu intervenções, ela é a que está mais preservada entre as fontes históricas de São Luís. O local hoje é palco de encontros culturais, mas também de cenas pitorescas. É comum ver moradores de rua tomando banho no local. No começo do mês, uma moradora das adjacências da fonte flagrou um homem banhando um porco dentro da fonte.

Homem dá banho em porco na Fonte do Ribeirão (Foto: Divulgação)

Localizada no antigo Sítio do Ribeirão, bairro popular, famoso pelas vendeiras de peixe frito com farinha d’água, entre as ruas do Ribeirão, dos Afogados e das Barrocas, a Fonte do Ribeirão foi construída para melhorar o saneamento da cidade e oferecer água de qualidade à população, mas a função de abastecimento da fonte parece ter ficado mesmo no passado, visto que das cinco carrancas que outrora despejavam água no local apenas duas ainda vertem algum líquido, mas o filete de água que cai é tão mínino que é como se a própria fonte estivesse dando sinais do seu estado de abandono.

Fonte do Bispo é utilizada como poço por comunidade (Foto: Flora Dolores / O ESTADO)

Bispo
No período colonial, a população precisava de água para abastecer as embarcações, edificar os prédios, para o uso doméstico e comercial. Para tanto, buscavam água potável em poços, ribeiras, igarapés e nas ricas nascentes que formavam um exuberante lençol aquífero que irrigavam e abasteciam toda a ilha. À medida que a cidade foi crescendo, as dificuldades de acesso e abastecimento de água aumentam à mesma proporção, exigindo a construção de novas fontes que suprissem as necessidades da cidade em expansão. Assim, pelo menos 10 fontes públicas foram construídas na São Luís colonial e destas apenas três resistiram à ação do tempo e dos vândalos e chegaram, em condições de uso, aos dias de hoje.
Destas nenhuma foi mais descaracterizada que a Fonte do Bispo que, ironicamente é que mais preservou sua função de abastecimento da população.

Mas de fonte ela tem só o nome, já que hoje lembra muito mais um poço ou uma cisterna por causa da cobertura de zinco sobre as pequenas paredes de alvenaria. Entretanto, a importância da fonte para a comunidade do seu entorno é tamanha que ela deu nome à via onde fica, chamada de Rua da Fonte do Bispo, no Centro, segundo conta Diná Serra, que tem 78 anos. “Moro aqui desde os três anos de idade.

Quando menina, ainda lembro de uma placa junto à fonte com a data de 1889, colocada a mando do presidente da Câmara Municipal de São Luís, o senhor Joaquim Matos Rodrigues Neto”, conta.
Segundo Diná Serra, a água da fonte serviu para o consumo da população até pelo menos os anos 1960, quando não havia água encanada no local. “Hoje, a gente usa essa água para lavar roupa, lavar louça, limpar a casa, não mais para beber”, informa a dona de casa, que destaca ainda a abundância de água do local. “Vez ou outra a gente seca a fonte para limpar e trinta minutos depois ela está cheia novamente. Nunca vi esta fonte secar. É uma água que Deus manda para a gente”, diz.

Explicações
O Estado
entrou em contato com a Prefeitura de São Luís, questionando a situação das fontes. A Fundação Municipal do Patrimônio Histórico (Fumph) informa que já existe um projeto técnico para a reforma e recuperação da Fonte das Pedras, realizado por meio de uma parceria com o Iphan e a partir de uma compensação ambiental. Entretanto, não informou quando as obras serão realizadas. A Secretaria Municipal de Segurança com Cidadania (Semusc) informa que a Guarda Municipal realiza rondas periódicas na Fonte das Pedras e que o local está incluído no planejamento da secretaria para receber reforço no patrulhamento feito pelos guardas municipais.

A Secretaria Municipal da Criança e Assistência Social (Semcas), conforme preconizado pela Política Nacional para População em Situação de Rua, esclarece que tem prestado atendimento às pessoas em situação de rua presentes na Fonte das Pedras. A Semcas informa ainda que, entre as ações realizadas para este público, está a articulação do Serviço de Abordagem Social e Serviço Especializado para
Pessoas em Situação de Rua, ofertado pelo Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop). E que as ações visam ao atendimento e acompanhamento das pessoas identificadas, na perspectiva de ofertar acesso a documentação, inserção e atualização de dados no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, inclusão no Programa Minha Casa, Minha Vida, Programa Bolsa Família, entre outras ações.

Já a Subprefeitura do Centro Histórico informa que realiza regularmente serviços de varrição, roçagem, coleta de resíduos e lavagem completa na Fonte do Ribeirão. E que está viabilizando parceria público-privada para a revitalização do local.

SAIBA MAIS

Fonte das Pedras
Foi a primeira a ser edificada, em 1641, pelos holandeses que invadiram São Luís naquele ano. As águas da fonte são oriundas de um antigo córrego localizado em meio a uma área de manguezal de onde jorrava água em profusão para o lado do Portinho – onde ficou fundada a esquadra holandesa - sendo a primeira nascente a ser canalizada na nova cidade.

Fonte do Bispo
Segunda a ser construída na capital maranhense, no ano de 1679. Da antiga construção em pedra de jacaré que abrigava os dois poços que a formavam resta apenas uma pequena cacimba. O seu nome deve-se às freqüentes desavenças do frei Timóteo do Sacramento, que teria sido o terceiro bispo das dioceses maranhenses, com as autoridades do governo. O bispo teve sua prisão decretada, refugiou-se em seu palácio no Largo de Santiago e sem ter o que comer e beber por causa do cerco das tropas coloniais. viu-se obrigado a sair do seu refúgio para buscar água na nascente, sendo morto ali.

Fonte do Ribeirão
Construída em 1796, além de despejar a fonte despeja também mistérios e lendas de suas carrancas. Dizem que as galerias serviam de comunicação entre várias igrejas locais e os padres utilizavam-nas para dar um toque sobrenatural às missas, começando um sermão na Igreja do Carmo ou das Mercês e, logo, outro, na de Santo Antônio, após cruzarem as galerias. Outra história dá conta que as galerias subterrâneas da fonte serviam para o comércio ilegal de escravos e eventuais fugas de membros das Ordens Religiosas perseguidas, porém a mais contada das lendas que permeiam o local é a que conta a existência de parte do corpo da grande serpente que vive no subsolo de São Luís. Segundo reza a lenda, a cabeça do bicho estaria sob as galerias da Ribeirão.

Outras fontes
Com o crescimento da cidade, várias fontes públicas de água foram construídas pelos governos que se sucederam. Assim, foram surgindo pelos bairros, diversas fontes, denominadas de acordo com o nome lugar onde eram construídas. Além de Pedras, Bispo e Ribeirão, as mais conhecidas, foram construídas também as fontes de Olinda (1723), Telha (1774), Salina (1793), Mamoim (1795), Açougue (1809), Apicum (1827) e Marajá (1828).

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